'Nunca deixarei o basquete', diz o técnico Hélio Rubens


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SÓ BASQUETE - O técnico Hélio Rubens, em seu escritório, que tem as paredes cobertas por centenas de medalhas conquistadas na carreira de 53 anos
SÓ BASQUETE - O técnico Hélio Rubens, em seu escritório, que tem as paredes cobertas por centenas de medalhas conquistadas na carreira de 53 anos

O Jornal The Sunday Times fez uma coletânea, publicada no Brasil pela revista Isto É, retratando os mil maiores esportistas do século XX. Hélio Rubens Garcia, 71, estava entre eles. Sua trajetória de sucesso no basquete foi contada na página 92, ao lado da de Mané Garrincha. Não era para menos. Difícil encontrar alguém que tenha 53 anos de dedicação ininterrupta ao basquete e que tenha conquistado tantos títulos e glórias nos campeonatos paulistas, nacionais e internacionais. Só de Campeonato Brasileiro são 11 troféus. Foram 25 anos como jogador, sendo que em 5 anos foi eleito o melhor do Brasil, e mais 28 anos como treinador. Fez parte da maior conquista do basquete francano: o vice-campeonato mundial em 1975. Aliás, a vitória sobre o Real Madrid veio no último segundo, com uma cesta do meio da quadra feita por Hélio Rubens, que era o capitão.

Atualmente, no entanto, o maior vencedor da história do basquete no País enfrenta o pior momento da carreira. Hélio Rubens é alvo de uma saraivada de críticas que partem de todos os setores. Desde 2008, o time de Franca não faz uma campanha tão ruim no campeonato nacional. Para boa parte da torcida, a culpa é do técnico. “Fico com um sentimento de muita tristeza. Não estou conseguindo dormir direito porque é meu ideal ver o time jogando bem.”

Na última quinta, pouco antes de dar mais um treino à equipe, Hélio Rubens recebeu o Comércio para esta reveladora entrevista. Rebateu as afirmações de que está ultrapassado, disse que, em 2010, recebeu propostas do Uberlândia e do Boca Juniors, da Argentina, e que não pensa em aposentadoria, mas seu cargo está sempre à disposição da diretoria. “Estou frustradíssimo, muito triste, mas com toda a energia para continuar o trabalho em busca de uma recuperação. Não me imagino fora do basquete porque o basquete é minha vida.”

Comércio - O atual momento é o mais difícil da sua carreira de 53 anos dedicada ao basquete?
Hélio Rubens -
Acho que sim. É o mais difícil para todos nós. Existe sempre um planejamento para termos uma equipe com pelo menos 30 dias de antecedência em relação ao início de qualquer competição. Tentamos isso novamente, mas a diretoria não conseguiu desta vez. Trouxemos o Brian Wooward e ele teve problema sério no joelho. Tivemos que dispensá-lo. Trouxemos depois o Jermaine Johnson, na posição de lateral, e ele não conseguiu jogar nesta posição. Improvisamos como pivô, mas ele não era reboteiro e também tivemos que dispensar. O Kevin (Sowell) e o Eddie (Basden) deveriam ter chegado 30 dias antes do Campeonato Nacional, mas o consulado americano demorou para liberar o visto e eles só ficaram em condições de jogo quando o campeonato já tinha começado. Algumas coisa estavam planejadas e não foram executadas, mas não é culpa nossa. O que podemos fazer se o Babby, a maior contratação do clube, decidiu encerrar a carreira temporariamente? Quem imaginaria que o Pena fosse fazer uma cirurgia e que iria ficar 40 dias sem jogar? Que o Taddei também fosse se machucar? Quem esperava que o Vitor Benite, o Dedé e o Rogério fossem embora?

Comércio - O Benite foi embora porque não tinha espaço na posição em que gostaria de jogar. Não faltou habilidade da comissão técnica e da diretoria para tentar segurá-lo?
Hélio Rubens -
Ele inventou esta explicação, mas não é verdade. O Benite revezava com o Helinho e com o Fernando Pena e, muitas vezes, eles jogavam juntos, o tempo todo. Ele esteve entre os três jogadores com o maior tempo de permanência em quadra. O Benite foi eleito, depois da temporada, o sexto melhor jogador, a revelação e o jogador que mais evoluiu. Não gosto de ficar falando mas, com certeza, a saída dele tem relação com uma coisa muito pessoal. Algumas pessoas falam que foi influência da namorada que mora lá perto de Limeira. O Rogério, porque estava jogando menos, começou a achar que não queríamos ele, mas ele estava na nossa relação. O Dedé também queríamos que continuasse. E todos teriam reajuste salarial.

Comércio - Antes, os jogadores aceitavam ganhar menos para jogar em Franca. Hoje, está acontecendo o contrário, como foi o caso do Benite. Por que a situação se inverteu?
Hélio Rubens -
Aconteceu só com esses jogadores, inexplicavelmente. Tenho recebido contatos de muitos jogadores que gostariam de vir para Franca. A vontade de jogar aqui, tenho certeza, continua. Em Franca, tem uma tradição muito grande, há o relacionamento de trabalho, de companheirismo, de cobrança e avaliação constante.

Comércio - Por que, então, o time não consegue ser competitivo?
Hélio Rubens -
Tradicionalmente, nos esportes coletivos, existe um tempo para ganhar entrosamento. Franca sempre teve este tempo, mantinha uma base. Infelizmente, aconteceram todas as adversidades que não esperávamos. O Brasília, o Pinheiros e o Uberlândia estão mantendo uma base. Este ano, tivemos a ausência de sete jogadores. Os que chegaram estão se entrosando durante a competição. Por isto acontecem as atuações irregulares.

Comércio - Além do imprevisível, não houve também falha de planejamento, erro em contratações?
Hélio Rubens -
Em que que houve erro? Queríamos os jogadores, eles foram embora. Tentamos outros, eles estavam com contrato. Fomos atrás de estrangeiros. Os jovens estão aí, mas não estão prontos. Só o tempo vai dar esta oportunidade. Quem imaginava que a maior contratação do clube [Babby] fosse encerrar a carreira? Estas situações aconteceram. Nenhum de nós queria isto.

Comércio - Não houve erro na escolha dos contratados?
Hélio Rubens -
Não, acho que não. Se o jogador não dá certo, ele vai embora. Sabe como é feita a contratação de um jogador estrangeiro? É por meio de vídeos, de informação de agentes e das equipes por onde eles jogaram. Trazemos o jogador para um tempo de avaliação. Em todos os países, sem nenhuma exceção, os clubes trocam de estrangeiros duas, três ou até quatro vezes durante uma temporada. Aqui no Brasil não temos o luxo de fazer isto, pois aqui joga-se com contrato de trabalho. Estou frustrado. Estamos nesta situação muito difícil em busca da classificação para os play offs. Se conseguirmos, vai zerar tudo, começará tudo de novo. Podemos vencer, desde que estejamos com um time entrosado.

Comércio - A torcida é passional e não aceita essas justificativas. Críticas ao técnico se intensificam e partem de todos os setores. Esta reação machuca?
Hélio Rubens -
Claro. Na realidade, nosso trabalho é dedicado, exclusivamente, ao público torcedor. Ficamos muito tristes. Entendemos esta frustração, a revolta do torcedor, mas estamos lutando. Não estou conseguindo dormir direito porque é meu ideal ver o time jogando bem, ver o time se acertar, com mais conjunto, obter as vitórias. Esta tradição nós temos que manter. Em nenhum lugar do mundo, tem esta tradição de mais de 50 anos de participação ininterrupta sempre entre os melhores. Por outro lado, temos de reconhecer algumas coisas. Na última temporada, depois de muitas dificuldades, conseguimos chegar à disputa do título. Fomos vice-campeões nacionais com direito adquirido de disputar, a partir do mês que vem, a Liga das Américas. O comentário em Franca foi a perda do título e não a conquista do vice-campeonato honroso. A realidade é dura, frustrante, decepcionante, mas aconteceu. Vamos trabalhar para tentar evitar outras frustrações. Este é o nosso caminho. As mudanças vão acontecer sempre. No meu caso, por exemplo, o meu cargo está à disposição da diretoria permanentemente. Tenho recebido convites de equipes do exterior, não só do Brasil. Há seis meses, fui considerado o melhor técnico do Brasil. Não sou melhor do que ninguém, mas eu estudo, me atualizo, fico preocupado com o relacionamento, com a motivação. Fazemos avaliações constantes.

Comércio - O senhor disse que estuda e que faz atualizações constantes. Em outubro, o Teixeira, presidente do clube, disse que o senhor se aposentaria no fim da temporada. Dois meses depois, o Vargas afirmou que o senhor está ultrapassado. Como o senhor recebeu tudo isso?
Hélio Rubens -
O Teixeira reconheceu que foi um mal entendido. Viajando com ele, ele me disse que, quando eu encerrasse, deveria continuar na direção. Eu falei que, quando isto acontecesse, a gente conversaria. O dia em que eu for parar, eu vou anunciar, ninguém mais. Com relação ao José Vargas, ele tem todo o direito de emitir as opiniões dele, mas tenho dúvidas em relação ao que ele fala. Porque ele é uma pessoa frustrada. Ele tem uma frustração muito grande de ter encerrado a carreira com 42 anos. Quando ele tinha 30 anos, a gente se encontrou num Campeonato Sul-Americano e ele me disse: “Vou encerrar a carreira, já joguei no mundo inteiro, não dá mais, estou cansado”. Eu falei: “Você tem condição [de continuar jogando], rapaz, vamos para Franca”. Ele veio e se consagrou aqui. No meio da temporada, recebeu convite para ir para a Europa e abandonou o nosso time. Voltou depois, pedindo desculpa e recebemos ele novamente. No fim da carreira, ele já não tinha mais condições e queria continuar jogando. Eu disse, então: “Se você tem tanta condição assim, tem um monte de time que vai te querer”. E ninguém quis. E ele teve que encerrar a carreira. Estava com 42 anos. Tinha que encerrar mesmo. Ele tem esta frustração. Não se elegeu como vereador, acho que é outra frustração que ele tem. Respeito a opinião dele, mas acho que foi uma declaração de uma pessoa frustrada querendo se autopromover.

Comércio - As críticas e as insinuações de que está ultrapassado fizeram o senhor pensar na tão falada aposentadoria?
Hélio Rubens -
A minha vida sempre foi de pressão psicológica. Fiquei órfão de mãe muito cedo, fiz curso de direito e não quis exercer, fiz educação física. Trabalhei em uma época em que não se ganhava nada. Na vida, existem altos e baixos. Ninguém ganha sempre, ninguém perde sempre. O segredo está em como reagir quando você está na baixa. Se eu tiver que encerrar, não tenho mais preocupação com a parte financeira. Sou uma pessoa realizada, graças a Deus, mas me sinto bem trabalhando. Me dedico de corpo e alma.

Comércio - O Marcos, ex-goleiro do Palmeiras, disse, durante a semana, que sentiu que havia morrido ao se aposentar depois de 20 anos nos gramados. O senhor se imagina fora do basquete depois de 53 anos?
Hélio Rubens -
Não me imagino fora do basquete porque o basquete é minha vida. Se eu encerrar a carreira como treinador, serei um torcedor vibrante. Se tiver que dar minha opinião sem nenhum ganho financeiro, poderei ser diretor. O basquete faz parte da minha missão nesta vida. Nunca vou deixar o basquete.

Comércio - Qual mensagem o senhor deixa aos torcedores? O Franca vai reagir?
Hélio Rubens -
Minha mensagem é que o torcedor esteja junto com a gente como sempre esteve. Entendo as frustrações, as decepções, as mágoas, estes momentos de críticas exageradas. Gostaria muito que, nas vitórias e nas derrotas, a gente estivesse junto. Se tem uma coisa que temos em paz na nossa consciência é a avaliação constante e a humildade para reconhecer o que está acontecendo. Estou frustradíssimo, muito triste, mas com toda a energia para continuar o trabalho em busca de uma recuperação. 

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