Sem esquecer o 2011!


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No Facebook há um fluxo avassalador de palavras e comentários, aquela engolindo a outra, esse engolindo o outro, como as águas do Verão derrubando as encostas, os rios tragando as casas, carregando os carros, as gentes, desmanchando paredes como se fossem de papel.

No “Face” muito se vê e ouve com um click na linha destacada em azul, um toque de Varinha Mágica. Recolhemos amigos na telinha como Moisés, em cesto de palavras (alguns quase esquecidos!). NO monitor, vou desenrolando o Facebook (um moderno papiro), vendo o que perdi por não acessá-lo em um só dia de 24 horas, o tapete de palavras, de fotos de gentes conhecidas, recados e reflexões. Quase vejo transbordar uma cachoeira para fora da tela e para dentro de mim.

Luto com uma força danada para que meus sentimentos e pensamentos permaneçam em pé, depois do tropel palavrado. Na dificuldade, toda minha, de navegar neste estranho rio, sento-me à margem e resolvo pescar qualquer coisa. Quietamente. Enrolo a linha, a língua, vejo os peixes a saltar (tanta movimentação!), um cardume passa alegrinho ali, curtindo...

Do jeito que a coisa vai, Facebook abaixo (ou Facebook acima?) vejo que memória não é coisa de interesse para o Face, e que não serve para a gente guardar nele coisas ou ideias, mas que é bom de navegar, feito um caiaque em corredeira através do que oferece, gratuita e abundantemente.

Às vezes pesco coisas importantes, ideias grandes, mas às vezes volto sem nada na mão, ou na mente. Um vazio e uma solidão. Mas é valioso observar a cachoeira de gentes e palavras, aprender sobre formas de comunicação (ou não) neste século XXI.

Gosto do Facebook, mas quando a água não aguenta o meu caiaque, volto para o meu jirau, e penso muito. Na dúvida, paro, filtro e desço do caiaque. Vou conversar mais devagar, comigo e com outras gentes, e, em câmera lenta, tento focar o que preciso, deixo a coisa andar devagar, quase parando, dentro de mim. Fico às voltas com o aqui, com quem, quando, como, o quê, para quê meu tempo pede limites e filtros, que retardam (e condensam) as percepções. Tempos para edição do visto e sentido!

Por exemplo, 2011 ainda não me foi embora. Tem muito nele que preciso degustar e não posso, não quero, não consigo, não devo esquecê-lo. Vou guardá-lo comigo.

Às vezes quero diminuir a rotação do Facebook, de 78 rotações por minuto para 33 rpm (como nos velhos Long Playing do século XX). Assim creio que chegaria a um acordo de tempos e espaços no meu coração.

Mas o Facebook nasceu para alcançar velozmente o oceano! Já entendi e, às vezes, também quero esta louca maratona. Mas as emoções costumam se mover paquidermicamente. Então eu escrevo, um jeito de ajustar a minha rotação e o meu ritmo. E me digo, nesta primeira década de janeiro:

- Feliz 2011! Feliz 2010, ... 2009, ... 2008! Feliz Ano Zero! Depois, sim, avançarei para o 2012! Não quero perder a memória do que vivi.

Dentro de mim, as obras não pararam, nem parecem saber que houve um réveillon.

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