‘O Estranho no Corredor’


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O escritor mineiro Chico Lopes faz um recorte minucioso do caráter obsessivo em sua nova obra, O Estranho no Corredor
O escritor mineiro Chico Lopes faz um recorte minucioso do caráter obsessivo em sua nova obra, O Estranho no Corredor

“O protagonista é uma criatura esmagada por uma criação infeliz e desprovida de auto-estima que aos poucos se descobre como sujeito de seu próprio destino ao romper com o atavismo. Tive também a intenção de retratar implacavelmente as diferenças e semelhanças irônicas entre capital (São Paulo foi minha inspiração) e interior (a cidade imaginária de V.), mostrando quantas ilusões há tanto nos interioranos que idealizam a cidade grande quanto nos metropolitanos que sonham com voltar a cidades interioranas tranquilas e idílicas que não existem mais. Hoje, o mundo nos fita com hostilidade e loucura em todas as partes e os desafios são muito mais complexos”. Assim o escritor mineiro Chico Lopes descreve o personagem anódino de sua novela O Estranho no Corredor, lançada pela Editora 34 e bem recebida por críticos de veículos como a Folha de São Paulo.

Thriller noir e psicológico, a obra é um mergulho nas sombras de um obsessivo e se manifesta como um amadurecimento do que já se gestava nos livros anteriores, de contos. Deles conserva a aptidão para a incitação aos sentidos: a prosa de Chico tem, nominalmente, cheiro, cor, música e é, talvez influenciada por sua paixão pelo cinema, altamente imagética, com ênfase na construção cuidadosa do anticlímax, na precisão da claque. Também a contenção nos adjetivos, característica de todo texto maduro. O recurso à enumeração, que aparece em alguns momentos importantes do texto, dá sinestesia e um movimento paralelo à trama.

É no cotidiano comum, de tinturas algo sórdidas, que os personagens cheios de abismos, atravessados por dilemas existenciais e faltas as mais diversas se movimentam. Mas, O Estranho no Corredor enseja, sobretudo, a leitura psicanalítica, uma vez que o seu personagem principal é um exemplo clássico do conjunto de sintomas e traços da neurose obsessiva e que tem sua raiz, grosso modo, em conflitos de natureza sexual, comumente, numa estrutura edípica homoerótica.

A história se desdobra numa viagem pelos meandros internos de um professor de inglês angustiado, escritor bissexto, liberto apensas geograficamente de uma tia castradora; um jovem que, a partir de um desenho criado pela própria mão (a sua masturbação?) - a figura escura de um homem - passa a se sentir perseguido por alguém, com as mesmas delineações. Ficando claro aí se tratar de uma construção de seu próprio imaginário.

A maestria de Chico Lopes, contudo, é embaralhar significantes e ações ao ponto de jogar o leitor na dúvida sobre o quanto de real e o quanto de fantasioso há nesse persecutoriedade.

Nessa dinâmica tortuosa de atração-repulsão-culpa-repetição tendendo ao bizarro quase mórbido é que o caráter obsessivo do personagem circula vertiginosamente, emparedado, perseguido por si mesmo.

Leia abaixo a entrevista que o escritor concedeu ao Comércio.

Comércio da Franca - É possível dizer que o personagem principal inominado seja um alter ego seu?
Chico Lopes -
Creio que todo personagem que um escritor explora como protagonista de novela ou romance em profundidade tem mesmo alguma coisa de alter ego. Fisicamente, não tenho nada desse professor de inglês atormentado por um perseguidor misterioso, mas psicologicamente sim, tenho algumas características, principalmente uma juventude muito inibida e problemática em termos sexuais e à sombra de uma criação católica e puritana. Quanto à ausência de um nome, só me dei conta disso quando havia terminado a novela. No entanto, me pareceu um achado, porque tudo na narrativa remete a uma procura desesperada de identidade - então, é bem coerente. Ele é órfão de pai e mãe e um sujeito à deriva, sempre em fuga. É fundamental que até um nome lhe seja negado... Ele deve fundar-se a si mesmo. Sua missão é a criação de seu próprio destino.

CF - O que exatamente você buscou em termos literários e pessoais com ‘O Estranho no Corredor’?
Lopes -
Creio que a minha proposta foi estudar a formação (dolorosa) de uma identidade masculina num homem quase emasculado por uma criação muito restrita a um mundo feminino feito de puritanismo, morbidez, egoísmo e estagnação atávica. As mulheres (especialmente velhas) são a um só tempo maternais e restritivas com ele, impedem que sua virilidade aflore e reduzem-no a um joguete. É o conhecimento de Russo (personagem fundamental na trama) que detona a sua virilidade (o amigo lhe dá de presente a mulher que o ama) e gera a sua volta decisiva à terra natal, quando então poderá dizer não à tia e empreender sua busca de si mesmo. Procurei criar personagens em parte calcados em algumas figuras reais, claro, mas que são amálgamas de muitas criaturas conhecidas e muitas experiências vividas ou imaginadas.

CF - Consegue identificar avanço estilístico ou em outro sentido, em termos do autoaperfeiçoamento que a experiência literária vai nos dando?
Lopes -
Pra mim, há um avanço estilístico nesta narrativa, mais enxuta por um lado e mais pormenorizada por outro e, na verdade, eu sentia necessidade de partir do conto para narrativas mais longas. Meus contos (dos três livros, Nó de Sombras, Dobras da Noite e Hóspedes do Vento), lançados na primeira década do novo milênio, já traziam sementes de narrativas mais romanescas (devido ao meu grande interesse por personagens e tramas secundários) e eu queria aperfeiçoar-me também na técnica dos diálogos, que são mais abundantes e mais incisivos em O Estranho no Corredor. Depois desta novela escrevi mais outra (com um personagem feminino massacrado por uma sucessão de romances frustrados) e estou escrevendo um romance. O salto do riacho para o rio grande foi dado, sai dos contos para aventuras estilísticas mais arriscadas. E eu acho que o escritor que não se propõe riscos não é digno deste nome.

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