A minha esposa e eu somos cristãos, porém, desde o início do namoro integramos religiões diferentes. Ela sempre respeitou o meu credo religioso e eu sempre respeitei o dela. Ao longo de nossa vida em comum – que já conta com mais de 30 anos entre namoro, noivado e casamento –, fomos sempre solidários um com o outro. Nunca houve intolerância religiosa. Assim, sempre compareço a um culto da religião dela se a minha presença se faz necessária. Ela sempre agiu da mesma forma.
Nunca tivemos um único desentendimento cuja causa fosse, direta ou indiretamente, a posição religiosa de cada um. Nunca tivemos dentro da nossa casa uma ‘guerra santa’. Afinal não é a religião que garante a comunhão com o Criador e sim a conduta pessoal de cada um.
Com o nascimento das nossas duas filhas adotamos, de comum acordo, a conduta de orientá-las no sentido de enaltecer e destacar a importância de Deus na vida das pessoas. Mas não impusemos a elas qualquer credo religioso. Deixamos para elas a escolha do caminho mais adequado, aquele que melhor lhes explique a origem das desigualdades físicas, intelectuais, sociais e econômicas. Também, de onde viemos, qual o nosso papel neste planeta e qual o nosso destino destino após a morte do corpo físico.
A minha filha mais velha, depois de passar pela religião da mãe, acabou migrando para a minha. Já a caçula sempre esteve e permanece convicta na religião professada pela mãe. Fundamental, porém, é que ambas reconhecem a importância da presença de Deus em suas vidas.
Penso que lidamos bem com a situação, pois a diferença de religião não impediu nosso relacionamento, não foi causa de discórdias e desentendimentos e nem dificultou ou impediu a orientação religiosa das filhas.
Conheço pessoas que romperam relacionamentos promissores por não conseguirem lidar adequadamente com as diferenças religiosas. Isso me parece inadmissível, uma vez que aceitar determinada religião é algo pessoal e espontâneo, que não pode ser imposto. A fé não se impõe e também não se compra.
Reconheço que em lares onde o casal tem a mesma religião, a tarefa de orientação religiosa dos filhos fica bastante facilitada. Porém, conheço casos - e são muitos - de filhos que após atingirem a maturidade acabaram seguindo religião diversa daquela recebida dos pais ou se tornaram ateus.
O ponto principal é o de não se estimular a intolerância religiosa. Infelizmente a história da humanidade registra conflitos terríveis onde milhões de vidas humanas foram ceifadas e cuja única causa foi à intenção de um grupo de impor ao outro a sua preferência religiosa. Isso sim é inconcebível e inaceitável. Recentemente a intolerância religiosa levou integrantes de religiões diferentes a se esbofetearem por ocasião do ritual de limpeza da Basílica da Natividade em Belém.
O alicerce de uma sociedade equilibrada e democrática é a convivência harmônica dos contrários; o respeito que devemos ter com as preferências dos outros, sejam quais forem. Agir diferentemente disso é voltar ao tempo da barbárie. Afinal todas as religiões nos conduzem à elevação espiritual.
Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca
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