A globalização a partir dos anos 90 do século passado transformou a vida das cidades e modificou o perfil dos jornais
“O mundo não é mais como foi o de papai”, assim começou reportagem de abril de 1996, tema de capa da Veja, sobre “a revolução que está derrubando fronteiras e lançando o capitalismo numa velocidade jamais vista”. As imagens da revista mostravam um mundo unificado pelas marcas das grandes empresas, impondo-se no colorido da paisagem das metrópoles. Destaque para a japonesa Sanyo, em São Paulo, e a americana Visa, no Vietnã. Fim das fronteiras. Produto, capital e tecnologia perderam a identidade nacional. Moda com motivos africanos em Milão e supermercado na Namíbia são exemplos de como a globalização transformou o consumo e a vida das pessoas.
“Cuidado ao embarcar para não dar de cara com você mesmo no aereporto, já voltando”. A piada é mencionada em livro escrito a quatro mãos pelos jornalistas alemães Hans-Peter Martin e Harald Schumann para ilustrar as facilidades de comunicação e transporte desses novos tempos, consequência de um mundo cada vez mais veloz e interligado. Os autores defendem que “o mundo se torna um só”. Nunca tantas pessoas ouviram e souberam tanto sobre o resto do mundo. Nesse novo mundo, dominam absolutas as grifes ou etiquetas famosas. Ideias e produtos seguem o que os filmes propagam.
O mundo virou um mercado único, mas não é dessa forma que se realizará o sonho da humanidade, advertem Martin e Schumann. O McDonald’s chegou a Araçatuba, terra do boi gordo. O Interior Paulista globalizou-se, em sintonia com o mundo. Canção compostas nos anos 90 por Lulu Santos e Nelson Motta afirma que “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia...” Mas a globalização em curso não é exatamente a visão da “aldeia global” preconizada por Marshall McLuhan. Bilhões de pessoas acompanharam as Olimpíadas e a Copa do Mundo. “Nem por isso pode-se esperar que aconteça um intercâmbio de muitos interesses ou um melhor entendimento entre os povos”, afirmam Martin e Schumann. A saída é a regionalização. Esse é o grande valor da imprensa regional no mundo cada vez mais global. E os jornais regionais paulistas, paradoxalmente, se tornaram ainda mais relevantes para as suas comunidades compreenderem, com a visão global, os fatos locais.
As cidades
Os efeitos da globalização sobre a vida das pessoas e o perfil das cidades tornaram-se tema der reflexão permanente em todos os cantos do mundo. O escritor Vaclav Havel, ex-presidente da República Checa, falecido mês passado, escreveu que “no superpovoado mundo atual, circundado por densos sistemas de relações políticas e econômicas, de informação e de comunicações, tudo o que acontece inevitavelmente atinge a todos e diz respeito a todos nós”. Ficou evidente que o mundo global passou a afetar cada vez mais a todos. E emergiu então a discussão entre intelectuais sobre como se dará a regionalização nesse novo contexto da globalização.
O filósofo Alberto Oliva foi um dos primeiros a tentar desmistificar o fantasma do surgimento de um ser humano universal padronizado e sujeito à mesma lógica e gostos. “Somos preferencialmente definidos como cidadãos de um país, membros de uma família, funcionários de uma empresa, etc. Temos laços afetivos com a terra onde nascemos e criamos vínculos emocionais com os grupos a que pertencemos. Somos unidade irredutível e mera parte da realidade.” O geógrafo Milton Santos alertou para a existência da fábula da aldeia global, que surgiu, segundo sua tese, “para fazer crer que a difusão instantânea de notícias realmente informa as pessoas”. Escreveu ele: “Um modelo avassalador dito global é apresentado como capaz de homogeneizar o planeta quando, na verdade, as diferenças locais são aprofundadas”.
Geografia regional
A tendência da valorização regional já havia sido apontada nos anos 80 pelo americano John Naisbitt em best-seller no qual destacou a prioridade dos aspectos locais e regionais em relação ao global. Ele lançou na época o conceito da geografia pessoal: “As pessoas dentro de uma região têm valores e atitudes semelhantes, uma espécie de estado geográfico mental”. Mencionou dessa forma o ressurgimento da arquitetura regional, a expansão das rotas aéreas regionais e uma corrente demográfica de moradores de grandes cidades rumo a cidades prósperas e menores. Eram indicativos de um movimento de transformação da sociedade americana, que inclui a decomposição das megaestruturas (governos, grandes redes de televisão). Isso explicaria os índices de abstenção nas eleições municipais serem inferiores aos das eleições presidenciais nos EUA. Uma prova, segundo ele, de que o americano está mais interessado no destino do lixo de sua comunidade, por exemplo, do que nas grandes questões da diplomacia internacional.
Wilson Marini
Jornalista – wmarini@apj.inf.br
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