O jornalismo é regional


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Ainda hoje, imprensa ainda vive o paradoxo entre publicar o que é importante para a história ou aquilo que é relevante para o leitor que observa prioritamente a sua esquina, o bairro, a cidade

21 de agosto de 1968, Rio de Janeiro, redação do Jornal do Brasil. Repórteres se mobilizam para repercutir a invasão da Thecoslováquia por países membros do Pacto de Varsóvia, liderados pela então União Soviética. O telefone toca e quem atende é o editor de Cidades, José Gonçalves Fontes. Um leitor indignado reclamava de um buraco de rua que quebrara a suspensão de seu Gordini pela segunda vez no mês. O editor pondera que era um dia especial e que os jornalistas estavam concentrados no assunto internacional que repercutia fortemente no país. “O senhor está enganado, meu caro jornalista”, dispara o leitor. “Eu já li o seu jornal e sei que a invasão é importante, mas, no momento, o mais importante para mim e para todos os moradores de meu bairro é esse maldito buraco”. E finaliza: “Graças a Deus, ainda vai demorar muito tempo para que os soviéticos invadam a Rua Toneleros”.

Os jornais então reinavam sozinhos com fonte principal de informação. Não havia internet. Mais de 40 anos depois do episódio, a imprensa ainda vive o paradoxo entre publicar o que é importante para a história ou aquilo que é relevante para o leitor que observa prioritamente a sua esquina, o bairro, a cidade.

Há que se publicar isto e aquilo. Os tempos de globalização criaram uma nova necessidade aos cidadãos. Para entender o mundo à sua volta é necessário ter uma visão global. E o chamado noticiário internacional que mais interessa não são os fatos pontuais do exterior, mas aquilo que de alguma informa venha interessar ao conhecimento universal, nas áreas de economia, ciência, ambiente e outras. Notícia local então passa a ser aquilo que interessa os leitores, independentemente de onde aconteça. Uma geada na Flórida pode afetar o mercado da laranja no Interior Paulista. Quando ocorre, os seus reflexos passam a ser também uma notícia de interesse local ou regional.

Vida comunitária
Já em 1970, Walder de Góis escreveu nos famosos “Cadernos de Jornalismo” do Jornal do Brasil que na cidade de Cedar Rapids, Iowa, no oeste dos EUA, o jornal local era mais importante do que o The New York Times (considerado ainda hoje o mais influente do mundo). Não que o grande jornal não circulasse na pequena cidade, dizia Góis, “mas a sua presença na província é meramente figurativa”. O motivo que somente o jornal local “vive os problemas da comunidade e os reflete, sem desprezo da cobertura nacional e internacional que o acesso fácil da comunicação permite”. No Brasil é assim e continuará sendo. Existem três ou quatro jornais com prestígio nacional, produzidos em São Paulo e Rio, mas os jornais que mais circulam nas cidades são os respectivos jornais locais.
Escreveu ainda Góis: “O jornal de fora dificilmente poderia dar, em quantidade e substância, o mesmo tratamento às questões locais, seja por não vivê-las, e assim não compreendê-las, seja pela irrelevância dos assuntos menores de uma cidade para a população de outra. Acresce que o jornal de fora não disporia de graus de confiabilidade comparáveis aos do jornal local, que se construiu à base da vida comunitária e na confiança que ela lhe oferece”.
A tendência permanece atual e tende a se acentuar à medida que o mundo se torna cada vez mais global. “No princípio, a cidade era um mundo. Agora, o mundo é uma cidade”, disse o historiador americano Lewis Mumford. Em 1995, em visita ao Brasil, o poderoso empresário de comunicações Rupert Murdoch fez um apelo aos jornais para que abordassem as notícias locais. “Fique próximo dos seus leitores. Veja quais são os hábitos dos leitores. Os seus interesses. O que segura os jornais são as notícias locais. É isso que toca a vida das pessoas.” A notícia foi publicada pela Folha de S. Paulo – jornal que fracassou ao tentar criar uma rede de cadernos de cobertura local nos anos 90. Os leitores continuaram preferindo os jornais feitos na cidade – com história e vínculos locais.

Regional
A década de 90 marcou a descoberta do valor do jornalismo local e regional. Em encontro no Rio, o jornalista Hélio Fernandes, da Tribuna de Imprensa, defendeu que não existe uma “imprensa nacional” no Brasil. “A imprensa é regional”, disse ele, no que foi apoiado pelo então diretor de redação de O Estado de S. Paulo, Augusto Nunes: “O Brasil é muito grande. O jornal precisa ter um olhar regional”. Em conferência em Lisboa, Marcelo Rech, do Zero Hora (Porto Alegre), disse que a globalização, longe de ser uma ameaça, favorece a imprensa regional. Ele definiu como “globalização” o conceito de “pensamento global e ação local”.

Rede APJ
Nesse cenário floresce no Interior Paulista uma sólida e ativa imprensa regional. Quinze dos principais líderes regionais do mercado regional paulista estão reunidos por meio da Associação Paulista de Jornais (APJ). São estes os jornais que formam a Rede APJ: Comércio da Franca, Cruzeiro do Sul (Sorocaba), Diário da Região (S. José do Rio Preto), Diário do Grande ABC (Santo André), Folha da Região (Araçatuba), Jornal da Cidade (Bauru), Jornal de Jundiaí, Jornal de Limeira, Jornal de Piracicaba, O Diário (Mogi das Cruzes), O Liberal (Americana), O Imparcial (Presidente Prudente), O Vale (São José dos Campos e Taubaté) e Tribuna Impressa (Araraquara).
São jornais originados há várias décadas, alguns deles com mais de 100 anos. Fazem parte do patrimônio local e regional. Incorporaram-se à vida dos moradores da cidade e da região. A circulação auditada desse conjunto supera a de um grande jornal brasileiro editado em São Paulo, como Folha ou Estado, parâmetro que mostra a força da imprensa regional paulista e, por extensão, do jornalismo regional brasileiro.

Wilson Marini
Jornalista – wmarini@apj.inf.br

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