O primeiro casamento entre homens realizado em Franca foi com certeza um marco em nossa cidade. Marco importante que denota a virada do preconceito em direção à compreensão, ao respeito e à tolerância. Uma data também significativa para a consolidação da democracia e dos direitos fundamentais da pessoa, independentemente de suas preferências, crenças ou ideologias.
No entanto, parece que ainda há um longo caminho para acabarmos de vez com todo o preconceito que cerca essas questões. Se olharmos com mais atenção as duas reportagens publicadas por este Comércio, a primeira no domingo, 18/12, e a segunda na terça-feira, 20/12, vamos facilmente perceber o receio com que os noivos se dispuseram às fotos. Em ambos os casos, torna-se difícil distingui-los. Em uma das fotos é possível vislumbrar apenas a silhueta de ambos. Na outra, eles cobrem seus rostos com a certidão de casamento.
Em um primeiro momento, essa atitude pode até parecer contraditória. Os noivos aceitam a divulgação de seu enlace, mas paradoxalmente rejeitam a divulgação de sua imagem. Parecem querer auxiliar a causa com seu exemplo, mas ao mesmo tempo parecem temer a repercussão de seu ato.
Porém, se analisarmos essa aparente contradição à luz de nosso conservadorismo histórico, talvez fique mais fácil compreender o receio desses homens. Apesar da evolução em termos de costumes, ainda não nos livramos de muitos de nossos preconceitos e, de certa maneira, o Brasil se mostra um país bastante machista e conservador. Sendo assim, tornar público um casamento homossexual, agora em bases legais, talvez pudesse gerar reações contundentes por parte daqueles que não aceitam esse tipo de união.
De forma geral, e a despeito das normas e regras que a organizam, boa parte da sociedade mostra-se bastante resistente às mudanças. Sua cultura, seus hábitos e costumes, assim como as crenças e atitudes que a conformam estão todos ligados ao tempo, à educação e à história.
Portanto, é preciso que os homossexuais, bem como todos aqueles que defendem ou se simpatizam com seus direitos, tenham paciência. Essas mudanças de mentalidade deverão ocorrer de qualquer forma, em paralelo às transformações sociais. Porém, como sempre ocorreu em todas as épocas, elas acontecerão lentamente, ao longo do tempo, não sem antes experimentarem vários retrocessos. Conforme a temática, inclusive, esse tempo tenderá a estender-se ainda mais, o que com certeza acontecerá com essa que envolve o casamento homossexual.
Não obstante, aqueles que ainda condenam esses direitos deveriam começar a questionar suas convicções. Se assim o fizerem, talvez percebam que o preconceito em relação aos homossexuais não é natural, oriundo da biologia ou da genética, mas sim histórico, criado pelos homens, em um determinado momento histórico.
Nesse sentido, ele pode mudar, ou desaparecer. É uma questão de tempo.
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