O filósofo e historiador Karl Marx disse que a “história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa”. A bibliotecária e professora de português Vera Lúcia de Fátima Rezende Maia, atualmente coordenadora pedagógica da Escola Iarbas Rodrigues, de Claraval, sabe muito bem disso.
Mineira de Nazareno, cidade próxima a São João Del Rey, em Minas Gerais, mas francana de coração, Vera vivenciou a famosa frase desse pensador alemão em duas oportunidades, mesmo que de forma inconsciente, ou sem prestar-lhe atenção.
A primeira, com a tragédia que lhe custou a vida de seu filho único, Pedro Augusto Rezende Maia, arrastado pelas águas que escorriam pelo canal de escoamento, às margens da Rodovia Cândido Portinari, há quase cinco anos.
Em fevereiro de 2007, Pedro e mais três amigos saíram do treino da escola de futebol e seguiam em direção ao Jardim Primavera, onde moravam. A chuva tinha sido forte. Pedro tentou atravessar por uma vala cheia de água, mas desequilibrou-se e caiu. Foi arrastado pela força das águas e sumiu pela tubulação, pois não havia grade de proteção junto à boca de lobo. Para desespero de Vera e de seu marido, Tarcísio Maia, o corpo de Pedro foi achado no dia seguinte, cerca de três quilômetros distante do posto Galo Branco, onde ocorrera o acidente.
A segunda foi na última semana, quase cinco anos depois. Emocionada, Vera experimentou novamente aquelas terríveis sensações, mas dessa vez a distância, como expectadora e não protagonista. Com o coração disparado pelas lembranças, acompanhou o desenlace pela internet. E a história era idêntica, com os mesmos ingredientes. De um lado, o canal de escoamento e a chuva forte com suas enxurradas traiçoeiras. De outro, um garoto e sua bicicleta, mas o mesmo sentimento de inocência e aventura que caracterizava seu filho “Pedro Direito Augusto de Viver”, como ele assinava nos poemas que escrevia.
No final, porém, o mesmo desequilíbrio e uma nova boca de lobo, também aberta, sem nenhuma proteção, à espera de mais uma vítima. Para Vera, foi como reviver sua tragédia. Todas aquelas imagens e lembranças tomaram-lhe rapidamente a alma. Reviveu tudo em poucos minutos, mais uma vez sem poder fazer nada para ajudar...
Comércio da Franca - Como era o Pedro Augusto?
Vera Lúcia de Fátima Rezende Maia - O Pedro era um menino extraordinário. Era inteligente, educado e muito íntegro. Ele adorava esportes. Fazia um pouco de tudo, natação, basquete, vôlei, mas gostava mesmo era de futebol. Era muito alegre também, e muito apegado aos pais. Para você ter uma idéia, com seus 14 anos e 1,82 m de altura, às vezes ainda dormia entre eu e meu marido. Você pode imaginar? Era perna para cá, perna para lá, impossível dormir. Eu sei que pareço suspeita, porque sou a mãe, mas todos gostavam dele. Por onde passava, ele deixava saudades. Para você ter uma idéia, até hoje fazem homenagens para o Pedro. Na escola, já foram várias. A praça, próxima daqui, também leva seu nome. Enfim, era um menino que tinha uma vida maravilhosa pela frente, eu tenho certeza. Tinha tudo para ter sucesso. Mas...
Comércio - E como era a sua relação com ele?
Vera Lúcia - Nós tínhamos uma cumplicidade muito grande. Ele era tudo para mim, uma verdadeira história de amor. Talvez por ser meu único filho. Só de olhar eu já sabia o que ele estava pensando. E ele, a mesma coisa. Nós brincávamos bastante na chuva, na frente da casa ou na garagem, porque desde pequeno ele sempre gostou de tomar chuva. Outra coisa que nos unia era a poesia. Eu sempre gostei muito de escrever. E o Pedro também gostava. Estava sempre “arriscando” alguns versos. Seu slogan, em minha opinião, era ótimo: Pedro Direito Augusto de Viver. Ele inventou e usava sempre. Acho que influenciado pelo significado de meu nome, que eu sempre gostei de frisar: Vera Lúcia de Fátima, ou seja, a verdadeira luz de Fátima.
Comércio - Como a senhora soube o que havia acontecido com o Pedro?
Vera Lúcia - Quando aconteceu o acidente com o Pedro, eu estava viajando. Estava em Nazareno. Era madrinha de casamento. O Pedro havia ficado com o pai, porque queria comemorar o aniversário com os amigos. Foi a primeira vez que eu me separei dele. Quando eu estava para vir embora, já com as malas prontas, meus parentes insistiram para que eu ficasse mais um dia, porque iria haver um aniversário de outro parente. Eu não queria, mas sumiram com minhas chaves. Eu lembro que comentei com uma prima minha que não estava me sentindo bem. Acho que foi pressentimento de mãe. Quando meu primo chegou à festa para me avisar, eu percebi que alguma coisa estava errada. E estava mesmo. Foram 500 quilômetros de muita angústia.
Comércio - A senhora enfrentou uma das piores tragédias que pode se abater sobre uma mãe. Como enfrentou isso e como enfrenta ainda hoje?
Vera Lúcia - Em primeiro lugar, eu sempre tive muita fé. Se não fosse isso, se não fosse Deus, não teria suportado. Mas eu e meu marido tivemos também o apoio e o carinho de muitas pessoas. Alias, temos até hoje. Sentimos que nossos amigos, parentes e conhecidos são bastante solidários com a gente, o que parece ser uma característica importante dos francanos. Além disso, como já lhe disse, gosto muito de escrever e eu acho que isso me ajuda muito, pois com minha escrita consigo desabafar. Quando escrevo, imagino o sucesso que o Pedro alcançaria. Sonho com ele e tento construir o sucesso que tenho certeza que ele alcançaria. Como ele gostava muito de esporte, o imagino em um pódio, vencendo alguma coisa, recebendo algum prêmio. No fundo, escrevo e sonho com suas conquistas.
Comércio - A senhora acha que um dia conseguirá vencer essa dor?
Vera Lúcia - Não, nunca. Apenas posso me acostumar com ela, conviver com ela. Vencê-la, ou dominá-la, é impossível.
Comércio - Como a senhora analisa o acidente do Pedro?
Vera Lúcia - Um absurdo. Uma empresa tão grande, com tanta tecnologia, como pode deixar uma boca de lobo sem proteção alguma. Eu fico indignada com isso. Uma simples grade poderia ter evitado a morte de meu filho. Não quero acreditar em destino. Prefiro entender que foi desleixo, ou descaso. E, se você for ver, ainda hoje, a despeito desse novo acidente que aconteceu em outro ponto, às margens da Rodovia, eles só colocaram grades aonde o Pedro caiu. Do outro lado da estrada, cinco anos depois, eles ainda não fizeram nada. A boca de lobo continua aberta.
Comércio - Poderia haver alguma sinalização de perigo...
Vera Lúcia - Sem dúvida! Geralmente, um menino de 13 ou 14 anos ainda não deixou de ser completamente criança. Em certo sentido, é ainda muito puro, não vê malícia nem perigo. Quem tinha que enxergar esses perigos era a concessionária. Se eles têm seis advogados para mandarem para uma audiência, deveriam também ter mais gente para cuidar desses problemas.
Comércio - E como a senhora reagiu a esse novo acidente que tirou a vida do adolescente Kaique Silva Santos na última quarta?
Vera Lúcia - Fiquei chocada. Relembrei tudo novamente. Meu marido ficou sabendo e me avisou. Acompanhei pela internet. Foi muito triste. Aconteceu tudo igualzinho... Só quem passou por isso sabe o que pode ser a dor e o desespero que toma conta da gente. Mas, ao mesmo tempo, foi interessante, porque só agora percebi a dimensão da tragédia. Quando aconteceu com meu Pedro, eu não conseguia perceber isso. Talvez porque estivesse desesperada demais com tudo aquilo.
Comércio - Se a senhora pudesse, o que diria para essa família?
Vera Lúcia - Na verdade, não há o que dizer nessa hora. Eu acho que só iria oferecer um abraço amigo a essa mãe e chorar com ela. Mas torço para que eles tenham muita fé em Deus, que eu acredito ser a única forma de superar um momento como esse.
Comércio - A senhora e seu marido entraram com uma ação contra a concessionária Autovias. Como está o processo?
Vera Lúcia - Já ganhamos em primeira instância. A juíza de Franca condenou a Autovias, mas eles recorreram. O processo está em segunda instância. Mas isso é muito triste. A juíza determinou R$ 80 mil e eu fico pensando: será que a vida de meu filho pode ser medida por esse valor? Mas, de qualquer forma, eu acho que a empresa tem que arcar com sua responsabilidade. Quem sabe se for penalizada pela Justiça ela começa a tomar mais cuidado com esses canais de escoamento.
Comércio - O que a senhora gostaria de dizer para a Autovias?
Vera Lúcia - Eu pediria para que eles tomassem mais consciência do perigo que esses buracos abertos representam para a cidade e para nossos jovens. Pediria para eles nos ajudarem a tomar conta dessas crianças, porque devem ser pais também. Porque a vida, sem a alegria dos jovens e das crianças, não significa muita coisa. Cada buraco que eles fecharem, será um buraco a menos no coração de uma mãe. Porque ficou um buraco em minha vida.
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