Animadores ganham a vida no ‘gogó’ e ajudam lojas faturarem


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PALHAÇO - Paulo Matias usa a fantasia e a desinibição para conquistar clientes para loja do Centro de Franca
PALHAÇO - Paulo Matias usa a fantasia e a desinibição para conquistar clientes para loja do Centro de Franca

Na porta da loja de calçados, um homem com uma enorme cabeleira black power passa o pente-garfo nos fios e grita as ofertas. Mais à frente, um palhaço com blusa laranja, gravata dourada e as bochechas pintadas de roxo convida os clientes para conferir os preços dos calçados. Duas ruas acima, uma mulher com óculos escuros e uma flor no cabelo dança e anuncia as promoções da loja de acessórios. Outro homem anuncia as ofertas com um microfone. É impossível não notar a presença deles no Centro de Franca, lotado de consumidores. É dezembro, disparado, o melhor mês para as vendas no setor comercial. É nesse cenário que esses animadores são mais requisitados pelos lojistas que buscam táticas para vencer a guerra da concorrência.

O sapateiro Silvan Batista de Melo, 37, aproveita a época para lucrar mais trabalhando como animador. Ele começou a fazer esse trabalho há dois anos e atende quase dez lojas. Em outros meses do ano, trabalha numa fábrica de calçados até 17 horas e, à noite, faz propaganda volante e, aos sábados, trabalha nas lojas para anunciar as ofertas na calçada. Como está de férias do emprego na fábrica, está trabalhando no comércio todas as tardes e noites de dezembro como animador nas lojas. Ele não revela quanto ganha, mas garante que sua vida melhorou 100% depois desse trabalho. “Isso aqui é minha alegria. Tenho que colocar as pessoas para comprar, chamar gente para a loja e, se for bem, a loja me paga mais.”

Silvan veio de Jequié (BA) e ganhou o apelido de Baiano. É famoso. Ficou conhecido pelo cabelo. As pessoas passam por ele e até pedem para tirar fotos ou tentam esconder objetos na cabeleira dele - e conseguem. E nessa hora ele também aproveita para convencê-las a conferir as ofertas da loja Bom Preço Calçados, na Rua Ouvidor Freire, onde normalmente está. A voz dele é ouvida de longe. “Minha voz é potente. Tem gente que quer ver se estou com algum microfone escondido.”

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Vergonha não faz parte do vocabulário dos animadores. Doralice Borges, 46, fica com óculos escuros e até se veste de Mamãe Noel para dançar na porta da Bia Acessórios, na Rua Monsenhor Rosa. Dança, rodopia e canta Ai se eu te pego e Paga Pau, sempre observada por quem passa na calçada. E anuncia aos gritos: “Temos cintos masculinos a partir de R$ 9,90, estojo de maquiagem para a mulher que gosta de ficar arrumada e bonitona por R$ 16,90, só R$ 16,90. Boa tarde, vamos entrar, vamos participar do sorteio da loja.”

Doralice trabalhou em fábrica por quase 20 anos e já foi faxineira, mas há uma década decidiu explorar a vontade de ser artista. Em dezembro, trabalha nas lojas de Franca e em outros meses faz participações em festas. Nas vésperas do Natal, ela trabalha das 13 às 22 horas e chega a ganhar perto de R$ 2 mil. “A gente brinca, aborda o pessoal, faz bastante brincadeira porque a satisfação é levar alegria para as pessoas”, disse ela.

Paulo Matias, 58, é outro animador visto nas ruas da cidade. Ele era palhaço em rodeios, mas quando completou 30 anos teve que se aposentar e aproveitou a fantasia e a desinibição para conquistar clientes no comércio. “Adoro esse trabalho”, disse ele, que recebe R$ 50 pelas cinco horas trabalhadas por dia.

Às vezes, Reginaldo de Faria, 41, se veste de palhaço Pica-Pau para assumir o papel de propagandista, como se define. Ele é contratado pelo Lojão das Fábricas e Pele Urbana para, com o microfone em punho, anunciar os preços das mercadorias. “Se eu quiser trabalho diariamente porque faz muito tempo que estou no ramo.”

Reginaldo cobra R$ 70 por dia, mas acha que poderia ganhar o dobro. “Em dezembro consigo tirar na base de R$ 2.200, somando com o agrado que a loja me dá. Em outros meses, recebo R$ 1.500, mas poderiam pagar mais porque é um serviço diferenciado.”

E os consumidores, o que acham desses animadores? Uns ficam incomodados e outros se divertem. A estudante Rochelle Brandão, 14, é do segundo grupo. “Ouvi ele [Baiano] anunciar rasteirinhas de R$ 19,90 por R$ 9,90 e resolvi entrar na loja para conferir as sandálias. Se ele não falasse, eu não teria visto a promoção.”

PREFEITURA
Para fazer propaganda em espaço público (calçadas e ruas) é preciso autorização prévia da Prefeitura. A maioria dos lojistas não tem e fica sujeita à multa. Segundo Ismael Xavier, chefe do setor de Fiscalização, no primeiro flagrante, os comerciantes são orientados. Se reincidirem, estão sujeitos à multas de R$ 280 pelo Código de Posturas, que podem chegar a R$ 15 mil, se infringirem o Código do Meio Ambiente (poluição sonora).

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