A bela e nobre guerreira


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Em memória de
Conceição Lana da Costa,
educadora francana.

Durante muitos anos o Natal aconteceu na união de duas famílias, a “Lana da Costa” e a “Lana de Mattos”, na casa dos tios Conceição e Jerônimo. Tia Ceição, que falava pouco (e fazia muito), oferecia o leitão à pururuca e, impreterivelmente, castanhas portuguesas cozidas. Éramos, todos, em doze, sete da família Costa.

Sem crianças pequenas na época (que fazem a Magia do Natal, com seu assombro e deslumbre) meu pai, patriarca da Família Mattos, era uma espécie de “Noel das Atmosferas Natalinas”, a evocar a Criança nos então adolescentes, quase-adultos, nos “velhos” Pais.

Um mês antes, ele bolava jogos com “times” e as brincadeiras poderiam variar, ano a ano. Mímica com nomes de filmes, de músicas, brincadeiras-tarefas tipo gincana. Os juízes? Os Patriarcas e as Matriarcas.

As duas famílias entrelaçadas desde o casamento. Conceição e Luzia (as irmãs Lana) casaram-se no mesmo dia 10/02/1945 em Ituverava, os recém-casados seguiram juntos em viagem de núpcias para Santos. As duas matriarcas tiveram seus primogênitos no mesmo dezembro de 1945.

Por linhas do tempo e laços que foram se cruzando, o Natal transmutava duas famílias em uma só.

Tia Ceição alfabetizou na língua inglesa os sobrinhos, os que viviam em Franca. Trabalhava na garagem da casa em que habitava. Quando eu, aos catorze anos, iniciava o curso Normal no então Ateneu, ela terminava o seu, aos quarenta e nove anos. Tia Ceição graduou-se em Letras, com mais de 50 anos, na UNESP. Fundou a Cultura Inglesa de Franca, e, muito recentemente, mudou-se para Brasília, para estar junto às três filhas.

Ela não está mais entre nós, ao menos fisicamente (assim como os patriarcas, Mattos e Costa, idos, um e outro, há quase vinte anos).

Da mesma forma como viveu os seus noventa e dois anos, Tia Ceição se despediu da vida, digna, lúcida, harmoniosamente, entre os cinco filhos, mantendo suas crenças espirituais. Ela legou fortes traços, nobres, ao redor de si. A silenciosa presença transpirava Disciplina e Foco naquilo que era como a sua Missão, o ser educadora (seu Norte e Dever, e também Prazer).

Ela foi minha educadora desde os 10 anos, e por muitos anos. Continua sendo, quando me deixo habitar pela sua escorpiana fibra de guerreira, de quem não aceita impossibilidades para os Sonhos Que Constroem Destinos. Jovem, ela era atleta, e como dizia o meu tio Jerônimo era “um pedaço de morena!”, com longas, grossas e negras tranças e um sorriso sedutor.

Teremos um Natal 2011 sem as castanhas portuguesas e o leitão à pururuca. A beleza da Memória cultivada está em saber guardar, agora e sempre, nos meus Natais futuros, até o meu último, as casas da Tia Ceição, as suas garagens onde aprendi Inglês, e os tempos em que eu adolescia as minhas vivências. Os Natais em que os presentes jaziam esquecidos (não eram o motivo da reunião), a comida esfriava nos fornos (estávamos nutridos em outro espírito), todos ansiosos pelo “estar junto”. Das 21 horas até madrugada adentro, na Poesia do Encontro, ficávamos suspensos no Tempo e Espaço, ouvindo e sendo ouvidos, rindo e brincando nas “disputas” dos jogos e, principalmente, cantando(os patriarcas a sorrir enternecida alegria).

Natais de ontem que enriquecem os meus Natais de matriarca de Nova Família, hoje e amanhã. A adolescente transmudou.

2011 é o meu Natal da Gratidão, às mágicas e inevitáveis transformações, na fé de que Tia Ceição renasceu em mim, em inescrutáveis formas.

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