Assim que atravessa a Rua Doutor Júlio Cardoso, caminhando pela Rua General Carneiro, Cloves reconhece o homem parado lá adiante, pouco antes da Rua Campos Sales. Quando se aproxima, Cloves observa que ele está absorto, olhando o sobrado diante dele que ostenta, na parede, o número 1632.
- Bom dia, Sô Chico.
Sô Chico é homem velho e se destaca por suas roupas fora de moda: chapéu branco, terno branco, camisa cinza, gravata sóbria, sapatos pretos, de calcanhares muito gastos. Na mão esquerda, está a consorte inseparável uma bengala de madeira.
O cumprimento quebra sua concentração, provoca susto.
- Hein? O quê?
- Sou eu, Sô Chico, o Cloves.
- Ah... o Cloves Caleiro, do Banco do Brasil... Bom dia, meu jovem. Como tem passado? Faz tempo que a gente não se encontra...
Estou bem... Mas parece que o senhor está querendo estudar Inglês?
- Como? Estudar Inglês... Eu ?
- É, vi que o senhor estava olhando para a fachada da escola, não estava?
- Escola? Ah, virou escola? Não, não. Eu estava olhando é pra casa do doutor Jarbas.
- Ah, é verdade, o doutor Jarbas morou aqui. Mas faz muito tempo, agora a casa virou escola de Inglês. Bem, eu preciso ir. Até logo, Sô Chico.
— Até mais, jovem.
Chico Franco olha mais uma vez para as paredes coloridas, atenta para as letras enormes CNA, para a frase em letras pequenas; Inglês definitivo. Procura o jardim, a mureta. Constata que foram engolidos pela escola, pelo progresso, pelo tempo. Caminha até a esquina, fica um momento indeciso, não sabe se vai até o Museu Histórico, ali em frente, se vai embora.
O estômago orienta seus passos em direção ao bairro da Estação, afinal está quase na hora do almoço. Por isso, atravessa a rua e se afasta.
Vai pensando, porém, que a Margarida, a diretora do museu, deve saber tudo sobre a vida do doutor Jarbas.
- Aquela mulher sabe tudo.
Chico Franco sabe que o pai da Margarida, o senhor Jorge Elias, levou choque, quando estava trabalhando, lá na fábrica de borracha Amazonas. Foi levado pelo Tomazinho Licursi, até o consultório do médico. Já estava morto, todo mundo falava, mas o doutor Jarbas Spineli deu uma injeção na veia do falecido, e ele voltou, está vivo até hoje.
O consultório do doutor Jarbas era lá embaixo, na Rua Marechal Deodoro, em frente à Livraria Martins. A livraria fechou, fecharam a rua, agora é calçadão, só passa gente a pé.
- Fecharam o Cine São Luiz também. Agora só tem igreja pra tudo quanto é lado.
O consultório do Dr. David Ewbank ficava no mesmo quarteirão, pertinho do consultório do doutor Jarbas. Eu fiz consulta com ele, mas a vida inteira o meu médio foi o doutor Jarbas. A secretária dele conhecia todo mundo. O nome dela era Dona Sebastiana.
O doutor Jarbas quase não pedia exame de laboratório. Mandava a gente arregalar o olho, olhava. Depois escutava o coração e o pulmão da gente.
- Abre a boca.
A gente abria, ele examinava, pondo um pauzinho em cima da nossa língua. Depois, escrevia a receita e falava:
- Você está com anemia. Toma esse remédio e volta aqui.
Falava o que era para a gente comer, e numa semana a gente já tinha sarado.
- Médico igual ao doutor Jarbas pode ser que já teve aqui na cidade, mas melhor que ele, eu garanto que não teve.
Hoje a gente chega no médico, ele faz duas perguntas, manda a gente fazer um punhado de exame. A gente volta na outra semana com aquela papelada, ele olha e despacha o freguês.
- Você não tem nada não. Essa fraqueza é por causa da idade, do estresse. Compre essa vitamina aqui que você vai ficar bom .
Mãos dadas com as lembranças, Chico Franco vai percorrendo quarteirões. Está agora diante do antigo Clube dos Bagres. O suor já escorre da testa, passeia pelo rosto, empapa o colarinho da camisa. Indiferente ao sol, ao calor, sua bengala continua seu ritmado toc-toc em direção à Praça Sabino Loureiro.
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