Na foto: Parece uma lâmina com manchas de sangue, certo? Sim, mas essas são comestíveis. São feitas de calda de açúcar e cortadas com uma faca bem quente. A mancha pode ser feita com corante comestível ou calda de fruta
Acabo de virar a última página do livro e esse é sempre um momento solene e meio melancólico, pois é o prenúncio da separação do vínculo afetivo que estabeleço com o autor. É o início do vazio, do oco, que só se encherá de esperanças com o início de uma nova história, com o virar de uma primeira página qualquer...
“As minhas receitas japonesas”, da chef nipo-brasileira Mari Hirata, não é apenas um livro de receitas, mas um livro que trata da alma do povo japonês: “Ao contrário da exuberância da primavera, o outono, que é um pouco melancólico e tem cores menos juvenis, guarda mais semelhança com o espírito japonês”. Mari diz que o outono é um sinônimo muito empregado pelos japoneses, há o outono das artes, outono dos esportes, o outono da gastronomia e tantos outros. E eu, que sempre quis um outono por aqui, fui me sentindo meio fútil, pouco séria, meio descomprometida...
A autora herdou o perfeccionismo, o gosto pela especialização, o estudo. Atualmente, é professora de gastronomia brasileira em Tóquio, depois de passar pela confeitaria da família real japonesa. Fico aqui, do outro lado do mundo, imaginando como devem ser os doces da família real japonesa! Não vislumbro o nível de perfeição que uma pâtisserie (nome dado ao chef responsável pela praça dos doces) deve ter para exercer essa honrosa função.
A autora revela que a aula que maior sucesso faz é a que ensina a fazer pão de queijo. Acho isso fascinante. Hoje é possível encontrar pães de queijo nas vitrines japonesas e, em respeito a essa nossa mineira iguaria, não mudaram nem a grafia do nome, escreve-se assim mesmo: pão de queijo. Mas vão se especializando, fazendo pão de queijo de gergelim, de ovas de bacalhau, de algas etc.
Aliás, os japoneses são perfeccionistas e silenciosos: onde já se ouviu dizer que o Guia Michelin (guia mais respeitado que avalia restaurantes no mundo todo, atribuindo estrelas aos melhores) tivesse distribuído estrelas em 248 restaurantes de Tóquio e 70 em Paris? Onde já se viu contar que algum estabelecimento tivesse recusado as tais estrelas? Pois é, se por um lado o medo da perda dessa estrela já causou até suicídio (o chef francês Bernard Loiseau se suicidou aos 52 anos por conta dos rumores de que seu restaurante iria perder uma das três estrelas do Michelin), em Tóquio, alguns donos de restaurantes as recusam, não querem ostentar as tais deslumbrantes porque simplesmente querem continuar do mesmo jeito: oferecendo comida maravilhosa para apenas oito comensais num modesto balcão.
Alguns vão dizer que é preciso crescer sempre, que ficar parado é se decretar morto. Acho que a vida tem mostrado nuances diferentes a essa teoria que nos corrói e estressa. Porque, se optarmos pela especialidade, não devemos ser grandes nunca. Mari Hirata diz que se perguntarmos a qualquer japonês onde fica o melhor restaurante japonês, ele vai responder com perguntas: de quê? De sushi? De tempurá? Porque vai haver um restaurante especializado em cada prato da comida japonesa! Não há nenhum restaurante querendo ser o melhor restaurante japonês.
Por isso, Tóquio vem se destacando ano a ano como a principal capital gastronômica do mundo.
Bem, adoro ler essas histórias! Gente que pensa diferente da gente, a globalização ainda não nos massificou por inteiro.
É pacificador, nos dias de hoje, encontrar quem ainda ache que o “mesmo” pode ser melhor que o “mais”.
Dica da semana
Algumas preparações são mágicas, têm o poder de transformações surpreendentes. Saber fazer um simples molho vermelho, uma manteiga provençal equilibrada, um azeite aromatizado que tenha um sabor fino é o caminho para que se alcance o tão almejado padrão de qualidade.
A manteiga aromatizada, como grande exemplo das prepara-ções base, é simples de ser feita, além de ser versátil. Basta elaborar, em separado, a mistura que emprestará o sabor à manteiga e depois bater juntamente com a manteiga sem sal na bate-deira. Bata até que se perceba uma grande le-veza e aeração: a manteiga deixa de ser manteiga para se transformar num creme leve. Para 400 g de manteiga, experimente 1 maço de salsinha, 4 dentes de alho, 2 galhos de alecrim, raspas de limão e um pouco do suco. Bata tudo no processador e depois incorpore a manteiga. Existem várias ou-tras possibilidades: pode-se acrescentar tomilho, ou mesmo elaborar uma manteiga com apenas folhas de sálvia e suco de limão siciliano. O sal deve ser adicionado na preparação como um todo e não apenas na manteiga. Pode-se congelar essa manteiga fazendo-se um rolo no papel filme, depois é só cortar fatias na hora da utilização.
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