Superação: dando a volta por cima com ‘bike’, pimenta e panetone


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EMPREENDEDORISMO - Em meio a acordes, Gustavo Moraes de Almeida expõe seus produtos na região central da cidade
EMPREENDEDORISMO - Em meio a acordes, Gustavo Moraes de Almeida expõe seus produtos na região central da cidade

A bicicleta é nova. Assim como o entusiasmo, agora purificado de algumas loucuras anteriormente vividas. Talvez ela não seja o veículo ideal para um vendedor, mas uma coisa é o sonho e outra bem diferente é a realidade. A “bike” foi o real, o possível. O sonho da moto ou do carro foi adiado pelos altos juros embutidos nas suaves prestações. Mais maduro e mais seguro de sua capacidade, Gustavo Moraes de Almeida sabe que esse dia vai chegar rapidamente.

Por isso, sai tranqüilo todos os dias. Para complementar a renda que obtém como “barman” na Creperia, o rapaz que fez curso de gastronomia leva em sua “bike” pimentas, alho, panetones e afins. Sem ponto certo, pedala pelas ruas da cidade “farejando” clientes e oportunidades. Em geral, busca os pontos onde as pessoas se aglomeram, em frente ao Fórum, em praças, pontos de ônibus e outros espaços próximos a centros comerciais.

Persistente, esse paulista de Ituverava, hoje com 35 anos, não tem nenhuma vergonha de sair vendendo alimentos pela cidade. Como já chegou a viver na rua e teve que pedir para comer, a venda tornou-se uma ação fácil, natural e tranqüila. Recebe muitas negativas, é verdade. Mas não entrega os pontos.

“Cada ‘não’ me motiva mais, me incentiva a transformá-lo em ‘sim’. De cada cem pessoas que dizem não, uma diz sim.”

Esse espírito empreendedor, no entanto, não começou agora. Se hoje está mais baseado em metas, custos, planejamentos e estratégias, conceitos que aprendeu com os cursos, palestras e consultorias oferecidos pelo Sebrae, anteriormente se baseava apenas no instinto comercial, que parece ser a tônica de toda a família.

A começar por seu avô materno, Jaime Moraes, já falecido, dono de uma fábrica de calçados em São Joaquim da Barra. Jaime fazia de tudo. Fabricava, transportava, vendia e entregava. Fez sucesso assim, criou seus filhos com folga e passou esse espírito empreendedor para a filha, Elizabeth, 54 anos, mãe de Gustavo.

Ela sempre costurou. Fazia isso para seus filhos e para clientes. Consertava e produzia roupas e outras peças, como lingerie, panos de prato, toalhas, shorts e camisetas, que Gustavo se encarregava de vender. Hoje, Elisabeth serve como exemplo e inspiração para Gustavo. Ao lado de seu outro filho e de sua nora, dirige seu próprio negócio, a Jolie Lingerie e Moda Praia. E resolveu voltar a estudar, matriculando-se no curso de moda da Unifran, onde atualmente cursa o 3º ano.

O pai de Gustavo, o enfermeiro Deodato Batista de Almeida Filho, também atuou no comércio. Contratado pela empresa Andrade Gutierrez, viveu e trabalhou em várias usinas. Nas vilas de trabalhadores em que se alojava com a família, Deodato sempre abria algum tipo de comércio.

Nessas andanças e empreendimentos, Gustavo sempre marcou sua presença. “Aos 13 anos de idade, ia sozinho de Nova Ponte a Uberlândia buscar as novas revistas que abasteceriam a banca do meu pai”, lembra Gustavo.

Porém, Elizabeth cansou-se dessa vida meio nômade. Em 1995, com o casamento em crise, se estabeleceu em Franca, uma cidade maior e que poderia oferecer mais opções de trabalho e estudo para ela e seus filhos.

Gustavo foi fazer um curso técnico em curtimento de couro. Ao mesmo tempo, porém, começou a enveredar pelo caminho da bebida e das drogas. Os motivos, ele não sabe precisar. Talvez fosse pela separação de seus pais, que de fato se consumou. O fato é que ele se revoltou contra tudo e contra todos, iniciando uma caminhada que não deixaria nenhuma saudade em suas lembranças.

Aos 23 anos, casou-se. Logo a mulher engravidou. Mas a relação durou pouco. Sozinho, Gustavo continuou a levar a mesma vida, entrando e saindo de empregos. Como sempre acontece nesses casos, foi definhando aos poucos, perdendo a dignidade e transformando-se em um ser humano sem perspectiva.
Para ajudar, tentou inclusive a música. Como já tocava violão e clarinete, seu instrumento preferido, conseguiu uma ajuda governamental para estudar no conceituado conservatório de Tatuí, cidade onde ficou por dois anos.

“Eu tentava parar, mas não conseguia. Já estava completamente dominado pelas drogas. A música me ajudou muito, mas não foi suficiente”, recorda.

De volta a Franca, para manter o vício, chegou a roubar dinheiro da mãe. Envergonhado, saiu de casa. Foi para as ruas e se transformou em pedinte. Viveu dessa maneira cerca de um mês, porém encontrou forças para reagir. Ficou durante três meses internado na clinica Pró-Reavi e conseguiu recuperar-se, uma recuperação que teve amplo apoio da família e da Igreja Batista Independente.

“A parte espiritual foi muito importante para que eu conseguisse me restabelecer totalmente. A igreja me ajudou muito”, diz.

Por essa época, já com 30 anos, foi pai pela segunda vez, fruto de um relacionamento que mantém até hoje. A partir daí, conseguiu canalizar sua energia para o trabalho, livrando-se definitivamente das drogas.

Por um golpe de sorte, conseguiu emprego na padaria Estrela como auxiliar de cozinha. Como sempre gostou de cozinhar, entusiasmou-se. Resolveu matricular-se em Gastronomia na Unifran, mas não concluiu o curso.

“O curso é muito bom, mas não atendia às minhas expectativas. Preferi parar para me concentrar em outras coisas.”

Hoje, Gustavo trabalha na Creperia. Em seu tempo livre, inventa sempre alguma coisa para fazer. Por meio dos cursos que fez no Sebrae, começou a planejar o negócio de vendas.

“É uma forma de juntar algum dinheiro e recomeçar sua vida”, desabafa Gustavo.

Seu carro chefe são as pimentas, mas também trabalha com produtos sazonais, como panetone, ou ocasionais, como o alho e a pizza, que costuma fazer para os eventos da igreja.

Seus objetivos de curto prazo são claros. Até fevereiro do ano que vem quer comprar um terreno, pois pretende se casar com a mãe de sua segunda filha. Até junho, quer estar com seu carro ou sua moto.

Os objetivos de longo prazo são mais ambiciosos, quase um sonho, poderia se dizer. Em função de tudo que passou, Gustavo gostaria de ter sua própria clínica para recuperação de drogados.“Seria uma forma de retribuir tudo o que fizeram por mim.” 

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