Depois de passar seis dias internado na Santa Casa de Franca, o sapateiro e músico Luciano Borges Francisco, de 33 anos, recebeu alta do hospital ontem e está na casa da noiva. Ele é a única testemunha da Tragédia do Portinari, ocorrida há exatamente uma semana. Na manhã do dia 9 de dezembro, o sapateiro Thayron Herivélton Ribeiro da Silva, 19, matou a tiros a ex-namorada Eloísa Cristina Francisco, 14, a avó dela Euripa Borges, 57, e se suicidou. Ele também atirou contra o pai de Eloísa, Luciano, que foi alvejado três vezes.
O pai de Eloísa, o sapateiro e músico Luciano Borges Francisco, demonstra estar calmo e se lembra com detalhes do dia do crime. Se recorda inclusive que depois de ver Thayron morto na varanda de sua casa, pensou em usar a arma e acabar com sua vida também. Mas desistiu ao pensar nos filhos Ellen e Pedro.
Ele não pisou mais na casa após a tragédia e deve retornar ao imóvel hoje. Planeja colocar a casa à venda, se mudar do Jardim Portinari e recomeçar a vida ao lado da filha e da noiva. A luta agora é vencer a dor por ter perdido a mãe e a filha de forma brutal.
Comércio - Como está sua recuperação?
Luciano - Aparentemente está rápida. Um tiro atingiu meu antebraço esquerdo e espatifou o osso. Outra bala entrou pela garganta e saiu debaixo do braço. E terceiro tiro foi na lateral esquerda do corpo, embaixo do peito e ficou alojado na costela. O corte na barriga foi feito para retirar o baço porque a bala passou por ele.
Comércio - Você vai voltar para a casa?
Luciano - Por enquanto sim, mas quero vender. Vamos pintar as paredes porque estão manchadas de sangue. Sei que não vai ser fácil porque imóvel onde acontece crime como esse fica marcado. Lógico que fica a dor e a lembrança, mas a gente não pode desistir, tem que deixar o tempo tirar isso.
Comércio - Como tudo aconteceu?
Luciano - Lembro de tudo. Eu estava na casa do fundo, onde moro com minha noiva. Ele chamou no portão e eu fui atender. Lembro que falei ‘nossa, você espancou minha filha e ainda quer conversar’. Ele falou ‘vim pedir desculpa para o senhor, sua mãe e a Eloísa’. Nisso, minha filha veio com a chave do portão para abrir e recebeu ele na sala. Ele estava calmo. Os dois ficaram conversando e eu estava com minha mãe na cozinha. Minha mãe estava saindo de casa pelo corredor lateral e de repente ouvi os disparos, sem grito, sem nada. Minha mãe deve ter ouvido também e já entrou para a casa pela sala. Eu escutei e já corri. Quando pisei na sala, ele já virou para mim e disparou no meu braço e barriga, aí já caí no chão da cozinha. Nessa hora vi minha filha (Ellen) no quarto e fiz sinal para ela ficar quieta. Ele estava recarregando a arma e falando que ia matar todo mundo. Aí me lembrei da porta da casa dos fundos e corri mesmo ferido para trancar e proteger minha noiva que estava lá dentro. Estava com muita dor, mas tinha que trancar a porta. Joguei a chave longe para ele não achar. Nisso ele apareceu na varanda e acertou em mim na garganta e depois atirou na boca para se matar.
Comércio - Você tentou impedi-lo?
Luciano - Nem deu tempo. É tudo muito rápido. Estava com muita dor e ferido. Só na hora que ele veio na varanda atrás de mim, tentei dar um tapa na mão dele, mas ele já estava com a arma da boca e atirou. Vi a arma perto dele, vi minha mãe caída no sofá e passou pela minha cabeça fazer uma palhaçada. Mas não tive coragem. Lembrei da minha filha Ellen, que conseguiu se salvar no quarto. Vi que estava bem e vi que tinha que continuar.
Comércio - E você conseguiu pedir socorro?
Luciano - Depois que ele se matou, fui até o quarto e falei para minha filha Ellen chamar a polícia porque estava morrendo. Fui para a sala, vi minha filha e minha mãe, pus a mão nelas e vi que estavam sem vida. Minha filha estava com um tiro na orelha e minha mãe nas costas. Corri para a rua, liguei para a polícia e eles pensaram que era trote. De novo eles não resolveram nada porque já tinha feito boletim de ocorrência fazia uma semana da agressão do Thayron na Eloísa e já tinha ligado dezenas de vezes para denunciá-lo porque ele ameaçava todo mundo. Sentei lá na calçada e esperei eles chegarem. Para mim, acabou ali. Não voltei na sala mais, não entrei mais na casa até agora. Vou para lá só amanhã (hoje).
Comércio - Teve medo de morrer?
Luciano - Acreditei que ia morrer, mas não tive medo. Quando é assim você nem se preocupa consigo mesmo, você só pensa que acabou.
Comércio - No primeiro encontro com a Ellen no hospital você chorou e pediu desculpas. Por quê?
Luciano - Pedi desculpa porque não consegui evitar essa tragédia, impedir o Thayron de fazer tudo.
Comércio - Você o perdoa?
Luciano - Eu não. Acho que só Deus. Sei lá onde ele está, mas não desejo nada de ruim nem de bom, só o que ele merece mesmo, pelos atos dele. Ele é uma pessoa doente, totalmente desequilibrada, perturbada. Nunca vi ele sorrir.
Comércio - Sua filha tinha 13 anos e decidiu morar com ele. Você brigou com ele por isso?
Luciano - Nessa época falei para ele que ela era menor de idade e poderia dar problema para ele, mas ele jogou muito na minha cara que ela queria. A gente até chegou a sair no tapa na rua. No finalzinho agora, a Eloísa passou a concordar comigo e queria parar de ficar com ele, mas tinha medo por causa das ameaças.
Comércio - Ela chegou a ser agredida por ele?
Luciano - No sábado anterior (dia 3) ela foi a uma festa comigo num bar. Ele foi até a porta do bar e deu um soco na cara dela. Fiz o boletim de ocorrência no plantão policial. Depois disso a Eloísa ficou escondida na casa da tia dela, mas o Thayron continuou fazendo ameaças contra todo mundo e ela decidiu voltar para minha casa para não envolver mais gente da família. Ela voltou na quinta-feira passada e aconteceu tudo na sexta.
Comércio - O que você tem a dizer para os pais que são contra o namoro dos filhos?
Luciano - Se fosse para fazer algo diferente do que fiz seria bater porque os adolescentes de hoje são difíceis. Quando falava alguma coisa contra, ela dizia que eu não era pai e me xingava de ‘vacilão’ porque eu queria impedi-la de ficar com uma pessoa desse nível. A gente fica de mãos atadas. Sempre conversei com ela, mas não adiantou. Só se eu o matasse. Procurei o Conselho Tutelar e a Eloísa e eu íamos conversar com eles na sexta-feira, mas não deu tempo.
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