Manicures e açougueiros


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Duas reportagens publicadas por este Comércio nessas últimas semanas nos permitem uma reflexão interessante sobre a organização social e as profissões.

A primeira no domingo, 04/12, mostra o crescimento do número de manicures na cidade. Como o mundo moderno exige e desperta um cuidado maior com a beleza e a aparência, essas profissionais tornaram-se mais abundantes, porque mais procuradas pelas pessoas, inclusive pelos homens, agora menos temerosos de se mostrarem publicamente vaidosos.

A segunda, publicada no domingo, 11/12, mostra o outro lado da moeda. De forma inversa, apresenta a escassez de açougueiros na cidade. Mesmo com a proximidade das festas de final de ano e com um incremento semântico no nome do profissional, agora tratado como ‘manipulador de carnes’, parece que as pessoas não estão muito interessadas em ganhar a vida cortando e preparando carnes para consumo.

É natural que isso aconteça. Em todas as épocas, sempre houve profissões que se destacassem e outras pouco atrativas. Em função disso, também em todas as épocas o desejo das pessoas foi sempre abandonar essas menos atrativas e trocá-las por outras que lhes trouxessem mais status e melhor remuneração.

Logicamente, essa comparação precisa ser vista com ressalvas. Uma coisa é ser manicure, outra é ser açougueiro. O interessante nela é que tanto a preocupação com a beleza como o consumo de carne estão em alta. No entanto, enquanto a manicure chega a ganhar R$ 3.500 por mês e tem atraído cada vez mais mulheres interessadas em arriscar-se na profissão, um açougueiro tem um salário inicial a partir de R$ 750 (e com poucas chances de um salário muito mais alto) e parece estar desaparecendo.

Talvez não seja difícil entender as causas. Para além da questão salarial, em si muito importante, pesa também o tipo de trabalho. Como todos sabem, não é fácil trabalhar em um açougue. Além de ser um trabalho pesado, ele se dá em um ambiente que a despeito da preocupação com a higiene não é dos mais agradáveis. Muitoprovavelmente em função disso, quem pode acaba evitando esse trabalho, buscando outros que sejam mais leves e desenvolvidos em ambientes mais aconchegantes. Como o nível de escolaridade dessas novas gerações tem aumentado ano a ano, é natural que eles acabem encontrando abrigo em outras profissões e não se interessem mais em ser açougueiro.

Mesmo que os cursos gratuitos fornecidos pelo Estado formem alguns novos manipuladores de carne, como aconteceu recentemente em Cristais Paulista, se a profissão não apresentar melhores atrativos a tendência é que eles acabem buscando novas oportunidades em outros setores da economia.

Dentro desse contexto, caberá aos empresários do ramo encontrar formas de atrair mais pessoas para a profissão. Como estão em falta, uma boa dica seria começar pelo salário, já que o trabalho continuará pesado e desgastante.

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