Cabeça


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Sonhou mais uma vez que raspava a cabeça toda. Mulher, balzaquiana, trinta centímetros de cabelo loiro e liso. Raspar a cabeça seria demais. Falariam que ela estava fazendo quimioterapia. Ou que havia endoidado. Ficar feia? Como assim? Que foto usaria em seu Facebook?

Aconteceu que ela se levantou mais cedo naquele dia. Desfez as malas da última viagem pra capital e antes de lavar as roupas, arrumou os armários do seu quarto.

Falou menos nesse dia. Justo ela que sempre é tão verborrágica. É... Tinha algo estranho.

Reviu todas as fotos... Bastante coloridas - ela sentiu.

A mãe disse que ia sair.

Sentiu um trovão no peito, era o dia certo.

Sem muito pensar fez uma lista: lençol, travesseiro, edredom, fronha, toalhas, incenso de mirra, colar vermelho... E raspar a cabeça.

Saiu de casa como quem ia à guerra, mas pacificamente.

Comprou tudo, pagou menos e foi ao salão.

— Você poderia raspar minha cabeça?

- Mas você é mulher!

- É eu sei, mas você pode ou não pode raspar minha cabeça?

- Claro, gata! Pago 70 contos nesse cabelo!

- Fechado.

Saiu do salão, bem fresca.

Ex- loiraça. “Corajosa” - disse a maioria... Ficou horrível! Você é doida? Credo! Pirou de vez...

Ela não ouvia. Tocava barulho de onda em seus ouvidos.

A cabeça liberta sentiu o vento na raiz pela segunda vez. A primeira foi quando nasceu. Banhada na água salgada ela recebeu nome de rainha.

E pela segunda vez... agradeceu por ter nascido. E tomou banho com sabonete de maracujá.

Agora dorme. Aliviada.

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