Guias...


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Em viagens, interiores e exteriores, há os que gostam de aventurar-se e há os que querem entrar em contato com o Desconhecido de maneira segura. De camarote, digamos, em sentido figurado.

É possível, hoje, viajar tendo ao lado um (uma) Guia, rica experiência. Há roteiros de viagens em que um Guia especializado, um historiador, ou um crítico de Arte, faz o roteiro e oferece a agradável chance de aprendizado através da experiência e estudo do Guia.

Em Roma contratamos uma Guia para a visita ao Vaticano. Não é barato, mas vale quanto custa. Na fila para comprar os bilhetes fomos assuntando sobre a crise italiana, os atores políticos e o Povo italiano, hoje. É admirável um país ter Estados independentes dentro da mesma nação. Vaticano e San Martino são Estados independentes, embora se localizem dentro das fronteiras italianas. O Vaticano tem o Euro com efígie própria, imunidades diplomáticas, não se submetendo às leis italianas.

A língua é fator limitante, se queremos aprofundar nossa percepção da Cultura do país. Os asiáticos estão constantemente acompanhados por Guia usando walkie-talkie, com os devidos bloqueios de entendimento filtrados.

Mas gosto de sentir o vento inesperado que despenteia minhas ideias, e me deixar surpreender com os tombos nas minhas percepções culturais “naturalizadas”. E isto acontece quando se tem o choque com a língua estrangeira. É saudável, embora por vezes irritante, desagradável, travar contato com a minha Ignorância (reconhecendo os limites do meu saber).

Viagens são úteis para refletir profundamente quão pouco se sabe da própria cultura. Da própria rua em que se mora há duas décadas, os vizinhos, suas mazelas e conquistas. Compartilhamos, todos, a mesma Franca?

Às vezes eu me deparo com amigos que me dão um sentido histórico de uma Franca que eu desconhecia e, de repente, eu me vejo curtindo outra cidade. Centrada ainda melhor na minha cultura, brasileira-paulista-francana, penteio as ideias, acrescento novas percepções, situo hábitos e famílias, revejo os meus conceitos ao detectar o Poder e os micro-poderes nas relações dantes comezinhas. Intuo melhor a minha cultura, a idiossincrática e a social-comunitária, quando me deparo com outras.

O motivo que me levou a escrever este texto surgiu a partir de uma observação divertida, trivial. Em Roma e em Florença, eu me diverti a valer com os Guias. Encontravam-se por todo lado grupos étnicos, turistas de várias partes do mundo. O (a) Guia carregava uma grande vareta, e na ponta da vareta havia objetos encantadores. Tipo uma Flauta Mágica.

Borboletas, flores gigantes coloridíssimas, bonecos, na ponta das varetas! Guias cantando, em walkie-talkie, japonês, alemão, inglês, árabe, russo. Os lenços, os bichinhos de pelúcia, tremulando acima das cabeças das manadas de gentes. Pedras e calçamentos seculares, catedrais milenares, ruínas de ouvidos bem abertos, ouvem diuturnamente a música dos seres que ondulam de lá para cá, como golfinhos em bandos alegres, a seguir o líder.

No meio de tantas ondas humanas, eu me senti (parada e sorridente) no meio de um imenso Oceano, a pensar nas léguas que desejo (e espero) nadar ainda neste Planeta Azul. Esperança angustiosa. Sem ter Guia com Flauta Mágica, sem pertencer a manada alguma, eu, de repente, me apercebi sendo uma ínfima gota saltitante nas entrecruzadas correntezas submarinas falantes e pensantes.

Talvez por esta única sensação paradoxal valeu a minha viagem.

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