Francano, pianista, professor e compositor. Mário Ferraro é o tipo de pessoa que, segundo ele mesmo avalia, saiu de Franca para ‘bater as asas’. A causa? A paixão pela música. Das aulas de piano em Franca - desde os 14 anos de idade- , o músico deixou o município aos 18 e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde fez faculdade de música e mestrado em composição. No Rio, compôs para peças teatrais e para o cinema. E há dez anos resolveu especializar-se em música clássica.
Do Brasil foi para Londres, onde passou os últimos quatro anos dedicando-se ao doutorado em composição musical. De volta ao país há cerca de um mês, Ferraro traz na bagagem 16 composições clássicas (quase todas já estreadas em mais de 15 países) e um feito para o cenário da música erudita brasileira: foi o primeiro compositor brasileiro a ter uma ópera de câmara executada em um festival londrino. E diz: “minha intenção é de mostrar para as pessoas que existem brasileiros levando o nome do país para outros lugares. Isso existe”.
O gosto pelo drama musical veio com a experiência adquirida no teatro. “Tive muita sorte. Trabalhei com muita gente importante no Rio de Janeiro”, afirma.
A primeira peça orquestral composta por Ferraro foi Brasília, vencedora do Concurso Nacional de Composição Camargo Guarnieri de 2005. A peça foi executada e gravada pela OSUSP (Orquestra Sinfônica da USP). “Foi um divisor de águas para mim. Brasília foi meu cartão de visita para qualquer projeto em composição”. afirma.
Em 2007, Ferraro conseguiu uma bolsa de incentivo à pesquisa pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), e mudou-se com a esposa e os filhos para Londres, onde fez seu doutorado em composição na City University.
Em Londres, além da academia, Ferraro dedicou-se a desenvolver projetos próprios de ópera. E conseguiu algo inédito: a execução de uma ópera de câmara no Tête à Tête: The Opera Festival, espaço alternativo que busca a divulgação de novos artistas que se dedicam à música clássica. Foi a primeira vez que um brasileiro teve uma composição do gênero executada em Londres.
Este ano, o festival reuniu cerca de 30 produções. Moonflower, composição de Ferraro, foi a ópera de maior repercussão, com as duas sessões lotadas. A peça faz uma conexão cultural entre o Brasil e a Grã-Bretanha, com os personagens de Margareth Mee (desenhista botânica inglesa que morou no Rio de Janeiro e em São Paulo) e Chico Mendes em uma viagem pela Amazônia.
A experiência no exterior fez com que Ferraro percebesse o interesse que outros países têm em relação à cultura brasileira. “O mundo está muito interessado no Brasil e no que temos feito. Na verdade, somos desprestigiados por nós mesmos. Nosso povo não ama seus artistas”. E avalia a situação de Franca. “Historicamente, Franca era uma cidade de intensa atividade musical. Existiam muitas bandas e músicos. Mas quando eu cheguei na minha adolescência tive a impressão de que isso tinha morrido. Talvez até por isso eu tenha procurado o Rio de Janeiro. Tenho, aliás, muita gratidão à minha família, que me deixou abrir as asas”, diz.
Na passagem por Franca - na verdade, uma visita familiar-, Ferraro mostrou-se entusiasmado ao saber dos projetos que a cidade desenvolve em relação à cultura. “O Nazir (Bittar) é um benfeitor. O que ele faz para o público francano é fantástico. Não só ele, mas outros projetos como o Guri, por exemplo, são iniciativas que com certeza vão trazer para a cidade uma riqueza de cultura”, diz.
Ferraro também falou sobre o que pensa em relação à abordagem que a mídia faz no cenário musical. “Aqui há a banalização da música popular. Uma coisa substitui a outra, nada fica. As pessoas engolem aquilo. Que exista o sertanejo universitário. Mas que saibamos que temos outras opções. Eu separo a música descartável da útil”.
De volta ao Rio de Janeiro, Ferraro já tem encomendas de músicos para novas composições, e pretende manter sua relação com o exterior. Os planos do músico também envolvem traduzir Moonflower. “A música clássica brasileira tem um caminho enorme a percorrer por conta da massificação. Somos o país mais rico em cultura musical. Nossa música é admirada pelas pessoas do mundo inteiro”.
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