O pior analfabeto


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O ato de ler cria um mundo psíquico bem mais rico para uma pessoa. Quem não sabe ler tem visão limitada dos fatos à sua volta. Mesmo assim, um analfabeto pode ter visibilidade prática superior à de gente que apenas adquiri conhecimentos por meio da leitura verbal.

Em contrapartida, a sabedoria popular diz que para quem sabe ler um pingo é letra. No que está forrada de razão. Ainda mais se por pingo puder ser entendido um ato qualquer, já que nem mesmo palavras andam dizendo muita coisa ultimamente. A começar por ‘estatística’, porque qualquer mensuração coletiva pode apresentar falhas interpretativas.

Apesar da exatidão contida nos números, a estatística sempre foi passível de encobrir fatos.

Imagine que seu vizinho tenha três automóveis na garagem. Por seu lado, você não tem veículo de espécie alguma. Outro vizinho seu também só anda a pé ou de ônibus. Qualquer pesquisa de amostragem comprava que entre estas três famílias cada uma delas tem um carro.

Assim funcionam as estatísticas. A demografia, a psicometria, a biometria, a econometria e muitas outras ‘metrias’ sempre deixam margens para novas interpretações. Menos a geometria. Esta é uma ciência exata. Seus cálculos numéricos são precisos. Mesmo para quem não sabe conjugar o verbo ‘caber’. Experimente: eu ..., tu cabes, ele cabe, nós cabemos...

Muitas vezes um pedreiro-encanador não sabe dizer, na primeira pessoa do singular, se seu corpo cabe dentro de uma caixa d’água. Entretanto, consegue entrar no recipiente e fazer um furo geométrico, que possibilita a instalação de um cano para saída da água. Mas o que está escoando aqui é a estatística do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas).

De acordo o Censo/2010, 1/6 dos adolescentes entre 15 e 17 anos não estuda. Deste universo não faz parte aquele jovem que se matriculou e depois deixou a escola por falta de vontade ou por envolvimento com drogas. Esses ex-alunos entram para as pesquisas como sendo estudantes ainda. Aliás, tem unidade escolar que até os promovem para a série seguinte.

Ainda pelos números contidos nas pesquisas do IBGE conforme está em reportagem deste Comércio no último domingo, Franca apresenta 2,7% de analfabetos. Pela amostragem, a cidade conta com 8.839 pessoas que não conseguem ler ou escrever.

Numa demonstração de honestidade, os próprios recenseados declararam isso aos entrevistadores. No entanto, há alunos que não conseguem ler ou escrever. Será que algum deles teve a coragem de se declarar analfabeto? Se houvesse essa transparência, o percentual seria maior.

A se também considerar a máxima de que o pior analfabeto é aquele que sabe ler, mas não lê, provavelmente a quantidade de iletrados estaria noutro patamar. Só que a maquiagem da pesquisa não possibilita o cômputo dos que não leem por falta de hábito ou por preguiça.

Antônio Araújo
Articulista e professor – tonin.palavras@uol.com.br 

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