Francanos lutam para aprender a ler e escrever


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O indice de analfabetismo em Franca caiu 25% em 10 anos. Maria Aparecida de Azevedo, de 71 anos, contribuiu para essa queda
O indice de analfabetismo em Franca caiu 25% em 10 anos. Maria Aparecida de Azevedo, de 71 anos, contribuiu para essa queda

Para quase 9 mil pessoas em Franca, a simples tarefa de ler as placas nas ruas ou os letreiros nos ônibus é uma missão impossível. Elas não aprenderam a ler ou a escrever e agora dependem dos outros para decifrar as letras. Segundo dados do Censo 2010 divulgados na semana passada, 8.839 francanos com 10 anos ou mais são analfabetos, o que corresponde a 2,77% do total de habitantes da cidade. O número já foi maior. Há uma década, eram 12 mil pessoas.

A grande maioria das pessoas que não sabem ler ou escrever tem mais de 40 anos, é da raça branca e do sexo feminino. Isso porque no passado as mulheres acabavam abrindo mão dos estudos para ajudar a mãe a cuidar de casa e dos irmãos e, mais tarde, quando se casavam, preferiam se dedicar aos filhos.

Maria Aparecida de Azevedo, de 71 anos, é um exemplo. Ela cresceu na zona rural de Franca e não conseguiu frequentar a escola. “Naquela época o estudo era muito difícil. Não tinha escola na roça. Era tudo longe e meus pais não podiam levar a gente para estudar.”

Depois, Maria casou e teve filhos, mas a dificuldade continuava. “Tinha que ajudar meu marido na roça, cuidar dos meninos, da casa. Não dava para estudar.” Maria deixou a zona rural em meados dos anos 80. “Viemos para a cidade em busca de emprego, não tinha mais lugar pra gente no campo”, disse.

Na cidade, ela conheceu as dificuldades de quem não sabe ler e escrever. “Era um sofrimento só. Para tudo, precisava pedir ajuda. Não sabia ler o destino dos ônibus. Nem sei te dizer quantas vezes me perdi pela cidade.”

Com medo de enfrentar os bancos escolares, Maria relutou muito até aceitar o conselho dos filhos e procurar o supletivo municipal. “Foi a melhor coisa que fiz. Hoje faz quatro anos que estou aprendendo a ler e a escrever. Ainda tenho um longo caminho pela frente, mas a emoção de conseguir entender o mundo através das palavras não tem nem como descrever.” Nos quatro anos em que frequenta as aulas, Maria disse ter faltado uma única vez. “Só não fui porque estava muito doente. Eu não falto nunca.”

Maria agora está no 2º ano do primário, mas quer terminar os estudos. “Esse é o meu sonho. Espero que Deus me dê forças para isso.”

VERGONHA
Célia Maria Machado Tavares, chefe do Setor de EJA (Educação de Jovens e Adultos) da Secretaria Municipal da Educação, disse que vencer a vergonha é o maior desafio das pessoas que querem começar ou retomar os estudos. “Cerca de 20% dos nossos alunos estão entrando na escola pela primeira vez depois de décadas sem saber ler e escrever. É muito delicado para eles. Temos que dar todo apoio para que não desistam”.


 

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