Vida e morte de uma mulher de família que morreu atropelada


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RETRATO DE FAMÍLIA - Zilda Lopes dos Santos segura a foto da mãe, Maria de Lourdes, com a bisneta Emily; atrás, a nora Vera, o neto Caio, os filhos Jaime, Paulo e Jairo, e a neta Tatiane
RETRATO DE FAMÍLIA - Zilda Lopes dos Santos segura a foto da mãe, Maria de Lourdes, com a bisneta Emily; atrás, a nora Vera, o neto Caio, os filhos Jaime, Paulo e Jairo, e a neta Tatiane

Estamos de passagem nesse mundo, todos sabem. Empreendemos uma travessia que ora nos diverte, ora amedronta, preocupa ou assusta. Em alguns momentos, desafiamos os entraves, em outros nos adequamos a eles. E assim vamos seguindo, desconfiados de que viver é muito perigoso.

Nessa travessia, cada um cumpre seu papel, não aquele determinado pelo destino, mas outro mais específico, construído por nossos próprios pés. Alguns alcançam o status de “estrela”. Destacam-se na sociedade e levam adiante as suas transformações. Outros são mais humildes e atravessam a vida de forma mais anônima. Não se destacam, mas são de fundamental importância, pois carregam em seus ombros as tarefas necessárias do cotidiano, fundamental para que as “estrelas” possam brilhar.

Maria de Lourdes Martins Lopes, atropelada em uma dessas manhãs tristes do último novembro por um carro que estaria a uma velocidade de pelo menos 90 km por hora em uma rua com limite de 30 km por hora, pertenceu a essa última classe. Não foi destaque na sociedade em que viveu. Não inventou nada, não se destacou na política, nem nas ciências ou nas artes. Também não juntou riquezas, nem muito menos poder. Mas, talvez tenha feito muito mais, caso as pessoas se disponham a olhar sua vida com um pouquinho mais de atenção.

Antes daquela trágica manhã, Maria de Lourdes carregava em seus 75 anos de vida uma bela história de luta, persistência e dedicação à família. Antes daquela última travessia, daqueles poucos metros que não conseguiu concluir, Maria de Lourdes foi mãe de 5 filhos, avó de 9 netos e bisavó de 2 bisnetos, uma somatória que por si só pode dar uma dimensão da importância dessa mulher.

Importância que começou a se consolidar ainda na década de 1940, na região de Uberaba, quando ainda menina perdeu sua mãe. Morando com o pai e com os irmãos na colônia de uma fazenda, foi obrigada a assumir os cuidados dos irmãos mais novos, enquanto o pai e os mais velhos labutavam na lavoura. Um pouco mais tarde, precisou sair de casa para buscar o próprio sustento, pois seu pai não conseguia dar conta de tantos filhos. Foi morar em Uberaba, na mesma casa em que conseguiu empregar-se. E por ali ficou alguns anos.

Mas o tempo, sábio arranjador de destinos, tratou de pregar-lhe uma peça. Peça que lhe apareceu em forma de gente e aventura, com certeza cheia de medos, dúvidas e muita euforia. Era José Lopes que voltava para buscá-la.

A FUGA
Ainda na fazenda onde morava quando garota, havia conhecido o lavrador José Lopes. Na época, se aventuraram em um rápido flerte, daqueles que se davam apenas nos olhares rápidos que se permitiam às meninas de família, mas que geralmente ficam vivamente marcados nas retinas adolescentes. Porém, as condições sócio-econômicas de ambos não permitiram o namoro.

José Lopes precisou mudar para Ituverava, mas não se esqueceu da garota por quem havia se apaixonado. Assim que conseguiu, voltou para revê-la. Mas, se o tempo havia passado, as condições financeiras continuavam as mesmas. Sem ter condições para propor-lhe casamento, propôs-lhe a fuga, que foi imediatamente aceita.

De acordo com sua filha, Zilda Lopes dos Santos, “ela arrumou sua trouxinha de roupa, esperou que sua patroa dormisse e escapou pela janela”, uma epopéia corajosa, mas que lhe custou, pelo menos por um tempo, a mágoa e o silêncio do pai. Nada que alguns meses não curassem. Depois de instalada em uma fazenda, em Ituverava, Maria de Lourdes insistiu em falar com seu pai. Afinal, como lembra sua filha, nada havia acontecido entre eles até que consumaram o casamento, uma união que durou cerca de 40 anos, até 1995, quando José Lopes morreu.

A VIDA NAS FAZENDAS
Depois de casados, eles se instalaram na fazenda em que José já trabalhava e lá ficaram por vários anos, trabalhando duro na lavoura. De certa forma, repetiram a sina de milhões de brasileiros que ainda nas décadas de 1950 e 1960 não tinham outra opção de trabalho. Apesar do rápido desenvolvimento urbano-industrial que o país experimentava desde o começo do governo Juscelino Kubitscheck, quem não tinha estudo, ou qualquer profissão específica, não tinha outra coisa a fazer senão resignar-se ao trabalho duro e sem perspectiva do campo, lavrando de sol a sol.

Aos poucos, os filhos foram nascendo. Jaime, Zilda, Zé Luis, Paulo e o caçula Jairo. Em função disso, Maria de Lourdes foi obrigada a dividir o trabalho do campo com os cuidados da família. Como quase todas as mães, concentrou-se nos filhos.

Conforme iam crescendo, os filhos também iam para a lavoura, para ajudar José Lopes nas contas da casa. Jaime e Zilda lembram-se bem daquela época. “Nós trabalhamos muito na roça, antes de vir para Franca”, diz Zilda. Paulo e Jairo escaparam dessa etapa, pois ainda eram crianças quando os pais resolveram vir para a cidade. “Eu tinha 6 ou 7 anos quando viemos para Franca. Ao contrário de meus irmãos, não precisei pegar no pesado”, lembra Paulo.

Zilda se lembra também que eles viveram em várias fazendas. Chegaram a morar em uma perto de Barretos, de onde ainda guardam na memória as pescarias que Maria de Lourdes gostava de fazer. “Ela adorava pescar. Se meu pai resolvia ir para o rio, ela pegava a gente e levava junto”, recorda.

A VINDA PARA FRANCA
Em 1976, José Lopes conseguiu se aposentar. Para dar um futuro melhor para seus filhos, o casal resolveu arriscar-se em Franca com a família. Aqui chegando, comprou uma carroça para fazer carretos e completar o orçamento familiar. Maria de Lourdes continuou com as lidas da casa, ainda com dois filhos pequenos para cuidar.

Aos poucos, todos foram se arrumando. Os filhos mais velhos encontraram seus empregos nas tradicionais fábricas do setor coureiro-calçadista. Aos poucos, também, foram encontrando seus futuros cônjuges. Os mais novos foram crescendo e seguindo pelo mesmo caminho.

Quando se viu mais livre, sem crianças para cuidar, Maria de Lourdes pensou em trabalhar. Porém, José Lopes adoeceu. Para cuidar dele e poder equilibrar o orçamento, já que ele não podia mais trabalhar com sua carroça, ela resolveu costurar sapato em sua casa. E assim foram levando até o falecimento de José Lopes.

APOSENTADA
Depois que se aposentou, com os filhos encaminhados, Maria de Lourdes construiu uma rotina de dar inveja a muita gente, entre idosos e outros mais acomodados. Ela mesma arrumava sua casa, que continua intacta, limpa, cheia de santos e bichos de louça, nos fundos da casa de sua filha Zilda.

E cheia de televisores também, como lembram os filhos. “Ela não perdia uma novela por nada. Por isso colocou televisão nos três cômodos da casa. Se alguém chegasse na hora do jantar, tudo bem, ela cozinhava, mas de olho na TV”, diz Jairo.

Maria de Lourdes gostava de sua independência. Não pedia nada para ninguém. Adorava andar pelo bairro, onde era bastante querida e conhecida. Caminhava também pelo centro, vasculhando lojas e mais lojas, sempre acompanhada de sua irmã Maria Aparecida, mais conhecida como Nenê.

No dia em que recebia a aposentadoria, sua filha costumava dar-lhe uma carona até o centro. “Eu a deixava lá pelas 7h30. Quando voltava para casa, às 18h, muitas vezes ela ainda não tinha chegado”, diz Zilda.

De acordo com os filhos, ela tinha uma especial predileção por lojas de R$ 1,99. Mas, ela também aproveitava o pagamento para almoçar em algum restaurante da cidade.

Apesar dessa independência, Maria de Lourdes não abria mão de ver a família unida. Todos os sábados, os filhos se reuniam para almoçar com ela e, de 15 em 15 dias, às terças-feiras. Na verdade, a casa de Maria de Lourdes era uma espécie de centro gastronômico da família. Sempre havia alguém “se aproveitando” de sua reconhecida competência culinária.

ÚLTIMOS MOMENTOS
O casamento da neta se aproximava. Em uma de suas caminhadas, Maria de Lourdes havia visto um vestido em uma loja. Apaixonou-se por ele. Queria estar bonita para as comemorações de sua neta. Naquela manhã fatídica de novembro, Maria de Lourdes foi até a loja e comprou seu vestido. Saiu animada, começou a atravessar a rua, mas não conseguiu chegar ao outro lado.

O presente, Maria de Lourdes já havia dado a sua neta alguns meses antes: um fogão novo, de cinco bocas. Precavida, sempre dizia a seus filhos: “Nunca se sabe o dia de amanhã”. 

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