Na sala ampla da casa da Rua Ouvidor Freire, a televisão está ligada na Globo. Sentada em uma cadeira de rodas, Júlia Massucato, 14, assiste à novela A Vida da Gente. Os cabelos estão presos, as unhas, pintadas de vermelho. Segurando um celular que ganhou da mãe, ela recebe os jornalistas do Comércio com um sorriso. Espontânea, logo conta suas paixões e mostra que as limitações não tiraram sua risada. O sonho da adolescente é voltar a andar e dançar valsa com o paquera Vítor em 2012, quando ela completa 15 anos.
Júlia é uma das vítimas da Chacina da Ouvidor Freire, que completou, no último dia 24 de outubro, três anos. Ela, os irmãos, a mãe e a avó paterna foram baleados pelo pai e somente Júlia e a mãe, Valéria Gomes Freitas, 40, sobreviveram.
A tragédia aconteceu em 2008, quando Júlia tinha 10 anos. A garota continua a batalha para reaprender a falar, andar, escrever e lidar com as sequelas que teve após levar um tiro do lado esquerdo da cabeça. Mas, para a surpresa dos familiares e médicos, está evoluindo. A menina ficou em coma e durante meses permaneceu imóvel sobre uma maca, se alimentando apenas de líquido por sonda, sem sequer abrir a boca ou movimentar qualquer parte do corpo.
Hoje, Júlia consegue, segurada pela mãe, dar passos com a perna esquerda. A direita ficou mais comprometida. Ainda assim, ela não perde as esperanças e acredita que o sonho de andar novamente será realizado, em breve.
Na verdade, Júlia quer voltar a andar no prazo de um ano, para, em novembro de 2012, dançar valsa no seu aniversário de 15 anos. O par já está escolhido. É Vítor, seu paquera. Os dois são vizinhos e têm a mesma idade.
Júlia nasceu no dia 1º de novembro e ele no dia 2. Amigos na escola, já dançaram juntos em uma festa junina da pré-escola. “Vítor, Vítor”, diz ela, sempre empolgada e sorrindo. No celular, guarda uma foto dele. As sessões de fisioterapia na Apae e as aulas de hidroterapia prometem fortalecer as pernas e braços e melhorar os movimentos.
Na casa que foi palco do crime e onde mãe e filha moram, a tristeza parece não ter lugar. As gargalhadas de Júlia quebram o silêncio. E não é apenas Vítor que faz Júlia sorrir. Ela adora assistir às personagens Valéria e Janete no programa humorístico da Globo Zorra Total. Júlia imita Valéria e repete o jargão “Ai, como eu sou bandida”, dando muitas risadas.
Em 2010, Júlia começou a frequentar a Apae de Franca. Todas as tardes assiste às aulas na escola especial da instituição e tem sessões de fisioterapia e fonoaudiologia. A convivência com outras crianças ajudou a aumentar seu vocabulário e atualmente ela já forma frases.
Valéria disse que o atendimento na Apae tem sido muito bom. “Ela parece um anjo para todo mundo mesmo. Fiquei muito emocionada com a professora Jaqueline, que recortou uma foto nossa no jornal, colou na lousa e cada nova palavra que a Júlia falava, ela colava uma flor com a palavra dita ao redor da imagem. No dia da última reunião do ano, a sala estava lotada de flores”, relembra a mãe, comovida. Há um ano, Júlia pronunciava poucas palavras e hoje já consegue formar frases.
A menina está aprendendo a escrever com a mão esquerda, já que não consegue movimentar bem a direita.
Valéria é cabeleireira e divide seu tempo entre o trabalho (no novo salão que abriu há três meses na Rua Júlio Cardoso) e a filha. Em casa conversam e assistem televisão. Todas as noites ouvem músicas sacras e fazem orações. Júlia gosta de falar nomes das pessoas para quem reza. Os irmãos Letícia (gêmea) e Alexandre, a avó Lourdes e o pai Hélder sempre são citados.
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