Antes que a coisa tome vulto, é bom que se esclareça: não tenho pretensão de ser crítica gastronômica, não tenho formação específica, meu paladar parece ser bom, mas não o bastante. De qualquer forma, acho interessante mostrar e falar daquilo que ando comendo por aí. Sobretudo agora, que me relaciono com pessoas que sequer conheço, tenho motivos de sobra para prestar atenção aos sabores, cores e texturas desse mundo fascinante que é o da comida.
Isso posto, falemos de um pouco do nordeste na capital. Você vai precisar de um GPS se quiser comer a melhor comida nordestina de São Paulo. E, se você resolver ir de táxi, o taxista terá que ter um GPS. Aliás, pergunte antes se ele topa te levar até a Vila Medeiros: andar por lá é coisa pra nativo.
Embora empunhe orgulhosa a minha origem nordestina, demorei pra ir até o Restaurante e Cachaçaria Mocotó (Avenida Nossa Senhora do Loreto, 1.100). Afinal, é tão prático e aconchegante ficar nos mesmos lugares. Sobretudo se eles ficam pró-ximos ao hotel onde você se hospeda... Mas, a fama do chef Rodrigo foi crescendo, mais e mais pessoas fascinadas pelo jovem e bonito chef. A revista “Época” o classificou recentemente como uma das personalidades mais influentes do país. Então, dei um basta na preguiça e na prudência e fui me regalar com o melhor torresmo do mundo! Sim, do mundo, pois se é o melhor de São Paulo, deve ser o melhor do Brasil, e se é o melhor do Brasil deve ser do mundo. Depois do torresmo, provei uma espetacular demonstração de técnica: quadrados de queijo coalho empanados na tapioca e fritos. Uma maravilha! Todo mundo pede entradinhas e muitos começam a comê-las na rua mesmo, na fila de espera - quando estive lá, às 11 horas já tinha fila de espera. Por isso, o chef providenciou uma espera na c
alçada, com bancos e mesinhas. Não é confortável, mas as mesas equilibram bem as lindas e coloridas caipirinhas e porções de torresmo.
Sobre o prato mais gostoso, o mais bonito e o mais pedido não posso lhes dizer nada, porque não o comi. Mas, vi mesas se regalarem com a paleta de cordeiro no osso, com molho de vinho, cuscuz de milho e legumes, servida apenas aos domingos. Os pratos são grandes, servem dois, e desperdiçar comida está fora de questão. Por isso e por força do compromisso marital, dividi um atolado de sobrecoxa de frango, dourada no forno com tomatinho, ceboli-nha e azeitona verde. O prato vem servido numa panela de ágata: sabor e apresentação harmoniosos. Já no sábado, o prato da vez é a costeli-nha de porco desossada, recheada com pernil. Volto lá num sábado só pra provar isso!
Bem, depois de tanto abuso, meu marido requisitou um digestivo que passava de mesa em mesa numa alegria de quadrilha a afrouxar o riso dos comensais. A “branquinha”, que res-ponde pelo dissimulado nome de “francesinha”, é de-li-cio-sa! Uma mistura equilibrada de cachaça, melaço de laranja e paus de bauni-lha, muitos deles. Vou testar a receita. Se você for até lá, tome seu cálice, mas sossegue e vá embora com vontade de mais e mais.
O lugar é muito simples. Felizmente, é ainda frequentado por vizinhos e operários da construção civil. O serviço é atencioso, mas ninguém vai chamar um táxi pra você. Tampouco há um ponto de táxi em frente. Mas, se você resolver viver um legítimo dia de “cabra da peste”, tem um ponto de ônibus bem em frente ao Mocotó.
A dica da semana
Nas anotações do diário do chef Escoffier, há um relato sobre um nobre inglês (que não tem seu nome citado) que frequentava o seu restaurante juntamente com sua jovem e bela amante (palavras do próprio Escoffier). Certa vez, a jovem perguntou ao chef qual era o tempero dos camarões que ela tanto gostava e, ingenuamente, Escoffier disse a verdade: o tempero é alho. A moça se levantou crispada e saiu dizendo que nunca havia sido tão destratada em toda sua vida.
Este relato é apenas para ilustrar que, em um passado não muito distante, comer alho era algo totalmente deselegante, e nos dias atuais ainda se pode notar no ar um resquício desta crença. Embora a declaração “eu odeio alho” seja muito constante, encontrei em toda a minha vida apenas uma pessoa que realmente “odiava” alho. Ela tinha até ânsias com a pimenta em conserva se tivesse um dentinho de alho.
Confesso: adoro alho! Por comê-lo sempre, pude perceber que ele pode ser indigesto e persistente na nossa memória digestiva. A solução é partir cada dente de alho ao meio, longitudinalmente; no interior fica o germinador, retire-o e jogue-o fora. Pronto! Vai restar só o sabor, que durará apenas o tempo desejado.
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