Ele é o filho mais novo de uma família católica simples que vivia no bairro Cidade Nova. Criança, já gostava de rezar, ir à missa no domingo com a mãe e seu maior sonho era completar nove anos para se matricular no catecismo. Fernando Antônio Costa, 25, entrou para a história da Igreja Católica em Franca quando em 1998, aos 12 anos, pintou sozinho, e por iniciativa própria, com cal, um cômodo no fundo da sua casa, na Rua Álvaro Abranches, para fazer uma capela e rezar ali o terço, inicialmente, com a tia, um primo e a mãe.
Logo, o cômodo ficou pequeno para receber os fiéis. As reuniões na casa deram origem à criação da Comunidade Cenáculo Imaculado Coração de Maria, um braço evangelizador reconhecido pela Diocese, que atualmente reúne em média 3 mil pessoas às terças-feiras na nova sede, inaugurada em janeiro deste ano, na Avenida Dom Pedro.
Inicialmente, o comando da Igreja Católica em Franca manteve o Cenáculo à distância. “A Igreja é muito santa, é muito prudente, e ela teve conosco essa prudência de ver se realmente o Cenáculo era uma manifestação de Deus no meio do seu povo. Hoje o clero de Franca nos dá todo o respaldo. Dom Pedro [Stringhini] é muito mais do que um bispo para nós, é um pai.”
De fala calma e tranquila, Fernandinho do Cenáculo, como ficou conhecido, se prepara agora para tornar-se padre em breve - ele termina neste ano a faculdade de Filosofia, no Centro Universitário Claretiano de Batatais, e no ano que vem inicia os estudos de Teologia para ser ordenado padre. “Tive certeza de que tinha sido chamado por Deus na nossa primeira capela, no fundo de casa, porque sofri por aquilo, eu quis que desse certo, e a gente só sofre pelo que ama. Passando cal naquele cômodo, vi que era um chamado e que tinha algo diferente. Não era uma fase.”
Nos 13 anos de existência do Cenáculo, muita coisa aconteceu. Fernandinho diz que teve dúvidas e questionamentos se realmente era aquele caminho que ele deveria seguir. A maior provação, diz, foi quando ainda era adolescente e uma pessoa pôs à prova sua vocação de servir a Deus. Ajoelhado em frente da cruz e chorando, ele rezou e como resposta diz ter ouvido a palavra de Deus no seu coração: “Nunca desista dos seus sonhos. Eu sei que você pode, então vai adiante e não se prenda a ninguém, somente a mim.” Ele se levantou, lavou o rosto e continuou.
O Cenáculo, segundo Fernandinho, tem a missão de levar às pessoas a intimidade com o sagrado e restaurar a dignidade delas enquanto filhas de Deus. Ele diz que é impossível citar apenas uma transformação que a fé tenha feito. “Sabemos de pessoas que serviam o crime e hoje servem a obra do Pai aqui no Cenáculo. São pessoas que chegaram aqui no fundo do poço, desacreditadas e voltaram à vida.”
Um dos casos que ele gosta de lembrar é o de um jovem drogado que o procurou no fim de uma das reuniões na terça-feira. Ele cheirava a maconha e contou que havia ido ao Cenáculo para roubar. Já tinha aberto um carro nas imediações quando ouviu a música que vinha do salão. “O rapaz veio em busca do abraço do Pai, que provavelmente não conhecia ainda. Não sei se ele nunca mais roubou ou se ele saiu daqui e voltou para o crime, mas naquele instante sei que nós tocamos o coração dele”, disse.
Fernandinho faz atendimento diariamente no prédio, junto com outros colaboradores. As pessoas que o procuram querem ouvir a palavra de Deus e encontrar nela uma esperança. Fernandinho intercede por elas e reza, alimentando a fé, às vezes adormecida pelo sofrimento. “A oração é simples porque tudo o que você faz com amor é oração. Tudo o que você faz em nome do amor de Deus é oração. Não precisa ter palavra bonita ou estudar Teologia e Filosofia. Precisa ter vontade, sinceridade e verdade.”
Ele vai estudar para se tornar padre, mas não precisará ficar internado em um seminário. Como fundador de uma comunidade, foi aberta a ele uma exceção para não ter que abandonar o Cenáculo para estudar. O bispo Dom Pedro Luiz Stringhini nomeará um formador pessoal para acompanhar Fernandinho diariamente. Depois de formado, ele será um padre a serviço da Igreja, mas continuará seu trabalho na comunidade que criou.
SEDES
A obra do Cenáculo passou por várias sedes. Fernandinho diz que todas foram ficando pequenas para os fieis. Foi na igreja Nossa Senhora das Graças que se registrou a “explosão”: o espaço chegou a reunir 5 mil pessoas em uma missa. Foi essa imensidão de gente que fez com que Fernandinho percebesse que o Cenáculo precisava de uma sede maior. A comunidade se mudou, então, para o Ginásio dos Servidores Públicos, onde ficou até o começo deste ano.
“Precisávamos de uma casa nossa, até porque não temos apenas as reuniões na terça-feira, temos atendimentos durante todos os dias, temos a ONG (Organização Não Governamental) Construir, o grupo de adoração e o de jovens”, explica Fernandinho. O Cenáculo tem ainda missões fora da sede, como o terço realizado nas casas e as visitas de oração em hospitais e empresas.
A conquista do prédio que a comunidade ocupa hoje foi demorada porque o dono queria, na época, R$ 15 mil de aluguel e mais 15 fiadores, mas o Cenáculo não tinha sequer renda fixa para garantir o aluguel. No fim do ano passado, um advogado procurou Fernandinho dizendo que um cliente queria comprar o prédio, mas só efetuaria o negócio se fosse para alugar o prédio para a comunidade. Era o sinal que a fé de Fernandinho esperava.
A casa foi alugada por R$ 12,5 mil mensais, mas o custo total para manter a obra é de R$ 28 mil (pagamento de funcionários, contas de água, energia e etc ), valor arrecadado com doações através do programa Coração Doador, com a venda de alimentos na cantina e de produtos como CDs e camisetas na loja do Cenáculo, com promoções de pizza, feijoada e jantar e “caixinhas” que são passadas em duas das reuniões do mês. “Vivemos de milagres diariamente e nosso grande doador é Cristo. É ele quem providencia tudo”, disse.
Nem sempre a comunidade consegue arrecadar os R$ 28 mil. Em outubro deste ano, por exemplo, faltava uma parte para fechar a conta. Sem contar para ninguém esse problema que o afligia, Fernandinho se sentou ao lado de uma imagem de Cristo, que fica em frente ao Cenáculo, e orou por ajuda. Ele conta que um homem se sentou ao seu lado e pediu auxílio para sua vida pessoal. Fernandinho conversou e orou com o estranho que, ao sair lhe entregou um envelope, mas pediu que só fosse aberto depois. “Achei que fosse um pedido de oração e o deixei em cima da mesa para levar para a capela quando eu fosse rezar. Quando abri o envelope, quase não acreditei: ele continha um cheque de R$ 15 mil. Pagamos o aluguel e ainda sobrou para outras contas.”
O prédio, apesar de ser alugado, vem passando por reformas. Estão sendo construídas uma capela e um restaurante.
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