A base de nossa população nasceu da combinação de três etnias, brancos, negros e índios. Misturamos-nos até fartar, a ponto de Gilberto Freire, em seu importante, mas contestado livro, Casa Grande & Senzala, dizer que a luxúria dos portugueses teria estabelecido um aspecto democratizador nas relações étnicas brasileiras.
Com certeza, o povo português, já acostumado aos mouros que habitavam a península Ibérica, não teve problemas em se relacionar primeiro com as índias nativas e depois, de forma mais intensa, com mulheres negras.
Porém, a comunhão não foi tão doce como queria Freire. No curso da história, sobraram muitas rusgas entre essas etnias. Para além de um racismo velado, que para alguns é mais econômico que de cor, muito preconceito e desprezo se esconderam, e ainda se esconde, sob o manto da convivência pacífica e do jeitinho brasileiro.
No fundo, 388 anos de escravidão oficial deixaram muitas marcas em nossa mentalidade. Marcas que ainda se manifestam das mais variadas formas, desde o puro preconceito hoje felizmente combatido com a força da lei até as diferenças salariais contatadas por mais um senso divulgado pelo IBGE.
Por realizarem trabalhos manuais, não muito apreciados por nossas elites (talvez até os dias de hoje), os negros eram tidos como seres inferiores, uma percepção e um sentimento que não foram removidos pelo decreto real que aboliu a escravatura.
Nesse sentido, apesar das polêmicas que ainda giram ao redor desse tema, o Dia da Consciência Negra tem uma virtude, pois nos leva a pensar sobre essa realidade e a constatar diferenças de oportunidades e direitos que ainda separam brancos e negros nesse país.
Sabemos que elas ainda são significativas, mas se queremos construir uma sociedade justa e democrática, não temos outro caminho senão lutar para diminui-las. A data escolhida, inclusive, não nos remete à Lei Áurea, ou a Princesa Isabel, mas a Zumbi dos Palmares, um símbolo da luta dos negros em nosso país.
Nesse ano, porém, as comemorações vêm acompanhadas de um dado estatístico que a nosso ver contribui para que esses conflitos e diferenças caminhem cada vez mais para as tristes recordações de nossa história.
Matéria publicada por este Comércio na quinta-feira, 17/11, mostra que a população de negros e pardos em Franca cresceu 40% na última década. De acordo com o IBGE, o crescimento desse estrato é quatro vezes maior que o do restante da população.
Isso é um bom sinal. A despeito das implicações sócio-econômicas que esses dados possam encobrir, podemos inferir que as pessoas estão se reconhecendo negros com mais orgulho e naturalidade. Como consequência, podermos inferir que a tolerância entre essas etnias também está aumentando, na proporção inversa da ignorância racial.
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