Perguntam como é a rotina de ler cada uma das cartas, posts e comentários que o GCN recebe todos os dias
Respondo. A leitura de posts de internautas que se manifestam ao portal GCN.net.br – e são centenas de comentários –, bem como cartas que ainda chegam via Correios, é obrigações da Editoria de Opinião que conduzo. É estafante, mas prazeroso. Nas entrelinhas dos textos está a temperatura com que a população regional observa, consome e se relaciona com a informação que, diuturnamente, o GCN Comunicação produz e oferece a seu universo de consumidores.
Há comentários que incomodam porque são ‘gritados’, assim entendidos aqueles escritos em letras maiúsculas, tentativas de ‘quase’ imposição, o que a cartilha de boas maneiras do internetês abomina e desaconselha. Há textos longuíssimos, em que a essência do que se quer dizer caberia em duas ou três linhas. No mundo rápido e objetivo no qual vivemos, dizer mais que o necessário é certeza de erro e possibilidade de má interpretação. (Essa questão de falar tudo em poucas palavras é virtude que se precisa treinar. A recomendação, aliás, não é nova. Lembro-me, com carinho, de minhas professoras Noêmia Bordignon e Maria Marques, do primário, que estimulavam frases curtas, umas seguidas de outras. Se ainda hoje não consigo, não pensem que me desestimulo. O aprendizado é contínuo.) Há quem seja bom nisso. Quando recebo, havendo relevância no que se coloca, a publicação é quase imediata na página A2, de Opinião e Debate deste Comércio.
Há gente corajosa, que envia comentários corajosos e assinam o nome, com todas as letras. São os que ‘mostram a cara’. Sinto dizer, mas são poucos. Na maioria, as pessoas estão tementes, assustadas, preferem não se arriscar. Afinal, sabe-se lá, não é?
Tem também muito lixo. Há quem não consiga produzir meia linha de comentário sem grafar um palavrão. Outros, oferecem denúncias, imputam crimes, endereçam pautas embasadas no ranço pessoal contra este ou aquele, mas não apresentam fonte relevante, possível de ser verificada. Não há como publicar. E somos cobrados por não publicar. Somos, até, ‘ameaçados’ com pérolas como “vocês têm o rabo (sic) preso, por isso não publicam...”, ou “vou cortar a assinatura. Vocês não são sérios (sic)...”.
Há o esgoto, o fundo do poço, o que é anônimo. Apócrifo é um adjetivo estranho, pouco usado, mas característico da ação daqueles que resolvem pensar – e agir – com o intestino. Segundo mestre Aurélio, aplica-se para “obra sem autenticidade, ou cuja autenticidade não se prova”. São aqueles e aquelas que se escondem, que não mostram o rosto, que não se responsabilizam pelo que escrevem. E é muito complicado. Temos, para quem não sabe, ferramentas tecnológicas capazes de “desvendar” a maioria desses anônimos, mas isso não significa que vamos procurá-los. O destino destas comunicações é, invariavelmente, o ‘cesto arquivo’.
Tem, por último, personagens que gostam de brincar. Provavelmente são os mesmos que passam o dia aplicando trotes nos bombeiros, na polícia, no CVV. O pior e mais perigoso, dentre esses, é o que escreve e assina com nome de personagem conhecido esperando que, por falha ou desatenção nossa, possam ‘se orgulhar’ de zombar da seriedade alheia, expor ao ridículo ou remeter nossos veículos ao erro. Mesmo a melhor das tecnologias não pode com esses. É aí que entra o editor, espécie de ultima trincheira contra o que pode dar errado.
Este não é um pedido de desculpas antecipadas por algo que possa nos escapar. É dever de ofício contar nossa rotina. Também, e especialmente, sobre a preocupação e o zelo que nos movem no trato do feedback de nossa produção jornalística. Estimulamos a crítica, o aplauso, a cobrança e, por que não dizer, o sentimento de posse que muitos dedicam ao GCN e que nos torna muito próximos de nossos leitores de jornal e revistas, ouvintes de rádio, internautas. Somos nada, sem aqueles que em nós confiam, mesmo que, por vezes, nos desanquem.
GARCIA, O VINHO E AS MULHERES
Garcia Netto era um amante do bom vinho. Ano passado, em uma de nossas muitas conversas – “ganhei” a chance de conviver com ele depois que o herdei do caderno Nossas Letras e o convidei a ser periodista da página A2 deste Comércio, e foi um prêmio para mim – falávamos das mulheres de nossas vidas, Thereza, dele e Lourdinha, minha, quando ouvi, dele uma comparação que não esqueci. Concluímos juntos: as mulheres são doces e são tintas nas variadas épocas de suas vidas e cada vez mais saborosas quanto mais passa o tempo. Não há vida sem a mulher que amamos e que nos suporta, e não há recompensa maior que o vinho, que em tudo, as lembra”.
AINDA, GARCIA
Estou de mudança. Já são duas semanas de trecos e badulaques. Se não jogar nada fora penso que em – talvez – 20 anos, arranje lugar para quase tudo, isso se minha mulher deixar. Dentre as caixas, algumas guardam vinhos. Duas garrafas me são, desde semana passada, especialmente caras. Foram-me presenteadas por Garcia Netto na mesma época da conversa que acabo de contar. Aguardava a melhor ocasião para brindá-lo. Não serão degustadas. Continuarão lá, saudando a memória do bom amigo que tarde fiz e que cedo, perdi.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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