A sorte do Zé Silveira


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O Zé Silveira ganhou na loteria. .Acho que foi no ano de 1970, época em que a cartela da Loteria Esportiva relacionava onze jogos. Pela aposta mínima, o apostador apontava uma opção para cada jogo e, num deles, tinha direito a duplo palpite.

Na, então, cidadezinha de Cássia, apenas meia dúzia de pessoas possuíam televisores, enquanto o resto população praticamente só ouvia rádio. Era o caso do Zé Silveira, homem muito trabalhador, mas pobre, responsável por prole numerosa. Fora, pois, a custo que comprara rádio cuja antena um fio de arame amarrado em outro, estendido entre bois bambus captava mais ruídos que voz de locutor na emissora sintonizada.

Sete horas da noite de um domingo, pai e filhos, sentados ao redor da mesa, conferiram a cartela. Um coletivo de olhos arregalados fixou-se no papelzinho, ainda descrendo do que ouviam e viam.

Zé Silveira foi sensato. Dirigiu-se ao filho sabido, que estudava lá no Colégio São Gabriel.

- Sílvio, vai lá na casa do Caetano, vê se ele pegou o resultado. O rádio dele é bom.

Foram os quatro filhos, voltaram num instantinho. O pai conferiu, reconferiu as anotações, comparou com os furinhos na cartela, concluiu:

- É verdade... a gente ganhou.

Durante algum tempo, ninguém escutou ninguém, a família inteira falava ao mesmo tempo, quase aos gritos. Depois, a fala serena do pai se impôs.

-Todo mundo quieto, gente. Agora a gente tem de pensar devagarinho, com calma. A gente precisa planejar...

Não houve tempo para planos.Ninguém sabe como a notícia chegou aos vizinhos do lado, ao quarteirão, ao bairro. Nem souberam o que fazer, a casa se enchendo de conhecidos e de estranhos, todo mundo abraçando todo mundo, todo mundo festejando. O filho mais velho correu à venda, trouxe duas caixas de cerveja que tiveram de ser complementadas por outras. Até caixa de foguete apareceu, os estrondos infernizando a vida dos cachorros da casa e da vizinhança.

Felizmente as pessoas teriam de trabalhar no dia seguinte, foram embora, aos poucos. Assim, após a meia-noite, a família pode conversar, traçar planos para aplicação do dinheiro. Não houve pendência quanto ao principal: o grosso do prêmio seria aplicado na aquisição de fazenda grande, capaz de abrigar toda a família. Não houve consenso foi na aquisição de veículo para transporte de todos.

- Uma camioneta nova queriam os filhos.

- Usada insistia o pai.

E explicava. Os filhos teriam de tirar carteira de motorista, seriam barbeiros, no início, esbarrariam em barrancos, cairiam em mata-burros, bateriam em porteiras... Os prós e os contras se empilharam por bem duas horas. A esposa e mãe, jogou água fria.

- Tem tempo... depois que achar a fazenda, vocês decidem.

Às nove horas da manhã seguinte, a família toda, sinal visível de sono em todos os rostos, estava à porta da Caixa Econômica. O gerente explicou:

- Parece que só deu resultado óbvio, o número de ganhadores, esta semana, foi recorde milhares e milhares de pessoas.

Entregou o prêmio ao Zé Silveira, quantia insuficiente para pagar ao empório a conta das cervejas e dos foguetes.

Mas Zé Silveira ficou na memória de quantos o conheceram não pela frustração daquele prêmio. Ficou porque, sendo homem de limitadíssimas posses, humilde, criou toda a prole de forma exemplar. Seus descendentes viraram pessoas íntegras e cidadãos exemplares.

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