Infância


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Das imagens que brotam da infância, uma é recorrente: a avó, emoldurada nas paredes enegrecidas pela fumaça, avivando o braseiro do fogão à lenha . Sentado no outro canto da cozinha, o menino observa a velha senhora, enquanto amarra as tiras de borracha na forquilha que tirara da jabuticabeira . Assiste, curioso, ao embate da mulher com o fogo. No ínicio ela abana com energia, seus movimentos são firmes e rápidos. De onde está, ele vê o fogo avermelhar o rosto dela, as labaredas ganharem vida... Ela, pacientemente, mexe os pedaços de madeira, muda-os de posição, torna a abanar. E segue assim, silenciosa e concentrada, como a cumprir atávico ritual. Quando a mulher se afasta para buscar alguma panela, o menino se coça de vontade de mudar a posição dos gravetos e pedaços de pau... Será que algo aconteceria ? A curiosidade é logo contida pelo medo de que algo desastroso ocorra... Afinal, a avó completava seu dia com outras ações misteriosas: capava frangos, benzia os meninos da vizinhança e sabia, como ninguém, predizer a chuva olhando os cupinzeiros ...Aos poucos, o fogo perde o ímpeto, dá-se por vencido . Ela então apenas assopra as brasas de quando em quando, e o cheiro da comida perfuma toda a casa. É nesse momento que a avó, com uma pequena pá, escolhe as brasas que irão alimentar o pesado ferro de passar. O menino, com o estilingue já pronto,desinteressa-se, sai correndo para o quintal.

E eu, enquanto isso, assopro com cuidado, mudo os gravetos de lugar e tento manter vivo o braseiro das lembranças...

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