A vida


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A energia acabou e o velho motor parou. A gráfica da poesia, da história e oratória não funciona mais. Assim foi embora Garcia Netto, o homem que deixou obras e exemplos. Apareceu como radialista, exerceu jornalismo, foi escritor, historiador e grande orador. Co-fundador de clube de serviços, pertenceu a várias entidades e, por onde passou, deixou sua marca de empreendedor entusiasmado. Contudo, seu maior tesouro se fez pelo legado aos filhos, pois era devocionário da família.

Inteligente e de boa prosa, sabia um pouco de tudo. Falava como mestre e ouvia como aluno, valorizava o seu interlocutor. Sempre que saía de nossas reuniões eu tinha a certeza de ter apreendido um pouco. Falávamos de tudo, mas o que mais nos atraía era falar da história de nossa Franca e seus antigos moradores. No embalo da filosofia, discorríamos sobre vários temas, entre eles os vultos da história, as coisas da cidade e a saudade que pungia os corações. Tinha orgulho de contar de seu tempo de repórter, no Catete, na era Getúlio Vargas. Nos encontros em que os assuntos eram quase sempre bastante animados, o tema era livre. Só não podíamos falar de vidas alheias.

Certa vez, estávamos em um jantar e um amigo comum começou a se queixar de outro ausente. Com exímia habilidade Garcia mudou de assunto e, discretamente, deixou claro que ali não se podia falar mal das pessoas.

No meio de sua última primavera este grande homem nos deixou, mas não sem antes nos preparar para a despedida. Amigos e familiares que conviveram com ele nos últimos tempos tiveram a oportunidade de sentir sua serenidade, sempre dando força às pessoas que sabiam de seu preocupante estado de saúde. Liguei para ele e perguntei:

– E ai, como está?

– Tive uma parada cardíaca, mas os médicos me recuperaram. Estou bem!

Em outra ocasião, o encontrei animado e elegante. Repeti a pergunta e ele, em tom eloquente, respondeu-me:

–Eu não estou doente. Tenho consciência de que meu corpo é que está doente, mas isto não me tira o ânimo.

Vivi, naquele momento, os ensinamentos de São Paulo. O apóstolo está consciente da sua situação, porém, suas palavras não revelam amargura, mas a serena satisfação de ter gasto sua vida e a sensação de que o momento da partida se aproxima. “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. Agora está reservada para mim a coroa da justiça.”

Por várias vezes, ouvi comentários da Thereza ao se referir ao marido doente.

– Ele é que me dá força.

No velório ele estava elegante, terno branco, que gostava de usar no Réveillon, gravata azul de bolinhas brancas, simbolizando a paz. Coroas de flores circundavam toda a sala, amigos chegavam e saíam, prestando suas últimas homenagens. O ambiente era mais de contemplação do que de tristeza. Ao cumprimentar Flávio, seu filho, disse-me, em tom de agradecimento:

– Meu pai morreu com a mesma elegância que sempre viveu.

O José Reinaldo Filho, em outras palavras, afirmou a mesma coisa. Flávia, discreta, não chorava. Naquele ambiente parecia haver uma ordem maior: os filhos garantiam a quietude; netos e bisnetos, a esperança de que a vida continua.

Jorge Félix Donadelli
É formado em Direito

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