A língua de um povo deixa bem à mostra vários traços de seu comportamento social. Trata-se de fenômeno sintomático do modo de agir das pessoas. Isso porque o ato de pensar só vem à tona através da linguagem. Muito mais que as atitudes, são as palavras que escancaram o interior humano para o mundo externo.
As mudanças na maneira de falar e, em menor escala, escrever, passaram a ser acontecimentos normais e até corriqueiros na camada mais jovem da população. O fato em si apresenta dois ângulos. De um lado, pode ser positivo, quando cria novas palavras. A ocorrência serve de revitalização à língua. No entanto, se houver uma sistematização por meio da banalização, há o risco de se empobrecer o vocabulário e as próprias ações desse pessoal.
Uma prova disso está na constatação de Pero de Magalhães Gândavo que escreveu o Tratado da Terra do Brasil, em 1567. O livro foi dedicado ao infante Dom Henrique, príncipe-regente de Portugal. Seu sobrinho, Dom Sebastião, assumiu o trono em 1568, aos 14 anos de idade. Como se nota, o reinado estava nas mãos de pré-adolescentes. Claro, regidos por adultos.
Gândavo tinha grande apego ao latim. Entendia de psicologia linguística. Como residiu por alguns anos no Brasil, soube captar os inconvenientes da população nativa. Foi direto ao ponto em seu livro quinhentista: ‘A língua deste gentio da terra de Santa Cruz carece de três letras. Não se acha nela F, nem L, nem R. Coisa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei. E desta maneira vivem sem justiça e desordenadamente’.
Hoje, a juventude segue os mesmos passos dos índios. Parece não ter fé, nem lei. Anda tendo o seu próprio governo. Costuma fazer o que quer. Bebe, fuma e consome drogas mais pesadas quase que à vontade. Mais ainda, promove rachas motorizados. O que importa é extravasar a adrenalina. Viver livre. Não ter medo algum das consequências de seus atos.
O único governo dos jovens passou a ser a satisfação dos próprios desejos. Os seus impulsos se transformaram em reis. Está sobrando R na vida deles. Tudo à volta da juventude facilita a consumação das vontades imediatas. Com isso, os adolescentes seguem tão somente suas fantasias prazerosas. Eles não medem os contratempos advindos de suas ações impensadas.
A falta de fé pode ser creditada ao nascimento deste desregramento vigente, principalmente no meio mais jovem da população. A ausência de imposição de limites por parte da família acaba favorecendo o florescimento de uma vida sem compromissos. A juventude não presta conta de seus atos a ninguém. Nem mesmo para uma entidade maior.
De seu lado, o Estado cria as leis cheias de brechas. A primeira delas está no fato de o menor de idade ser uma pessoa quase que inimputável. Pode fazer o que quiser. A legislação dificilmente o alcança.
Antônio Araújo
Articulista e professor – tonin.palavras@uol.com.br
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