Diógenes foi um filósofo grego que viveu entre os séculos III e IV antes de Cristo. Condenava os prazeres da vida e fazia duras críticas à sociedade da época. Para dar exemplo, tornou-se praticamente um mendigo, fazendo da pobreza extrema uma virtude. Diz a lenda que vivia em um barril e perambulava pelas ruas de Atenas carregando uma lanterna, mesmo à luz do dia. A quem lhe perguntava o motivo dessa inutilidade, Diógenes dizia estar procurando por um homem honesto.
Se obteve êxito nessa busca, ninguém sabe ao certo. Mas, se não achou esse homem na Grécia antiga, com certeza Diógenes o teria encontrado na cidade de Franca, se, por acaso, ainda vagasse pelas ruas com sua lanterna. Conforme publicado pelo Comércio no domingo, 13/11, o borracheiro Anildo Ramos da Silva, morador do Vera Cruz I, achou um notebook na beira da estrada e o devolveu a seu legítimo dono.
O fato, obviamente, causou um misto de surpresa e encanto em toda a população. Se perder qualquer coisa pode até ser comum nos dias corridos de hoje, o ato de devolver não é tão comum quanto deveria ser.
Tão inusitado foi o desfecho da história que até saiu no jornal, um veículo de comunicação que, como qualquer outro de periodicidade diária, prioriza notícias que transcendem a normalidade cotidiana. Para esses veículos, o que conta é o extraordinário e não o ordinário, pois o que é comum não chama a atenção de ninguém. Mesmo que muitos não concordem com isso, é assim que funciona.
Dificilmente uma pessoa perderia seu tempo com uma notícia que relatasse o nascimento de uma criança normal, filha de cidadãos comuns, sem nenhum destaque na sociedade. Essa notícia só teria sentido se houvesse alguma coisa extraordinária com a criança, com o médico, com os pais, com o hospital ou com o parto.
O que se percebe, portanto, pela reação das pessoas e pela repercussão do fato, é que a honestidade passou para o lado do extraordinário. O que deveria ser normal transformou-se em estranhamento. E, se pensarmos bem, Anildo deve ter enfrentado algumas tentações até concretizar seu ato. Precisou vencer seus próprios demônios, afinal o valor do notebook aproximava-se de sua renda familiar mensal. Precisou ignorar os conselhos de alguns amigos, todos unânimes em lhe assegurar que aquilo que é achado não é roubado. Precisou, também, vencer a ansiedade e o brilho nos olhar de seus filhos, que ainda não têm computador.
Mas Anildo venceu. Ensinou aos filhos que a honestidade é uma virtude ainda válida nos dias de hoje. Talvez seu exemplo até frutifique, fazendo com que a honestidade deixe de ser extraordinária e volte à sua condição de normalidade. E que outros ‘Anildos’ surjam, apagando para sempre a lanterna de Diógenes.
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