Uma questão histórica


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O Brasil foi uma empreitada comercial. Diferentemente da colonização norte-americana, por exemplo, os que aqui vieram tinham em mente o enriquecimento e o retorno, ambos o mais rápido possível. Sonhavam com o ‘eldorado’, as riquezas fáceis falsamente propagandeadas pela mitologia da época. Não vieram com suas famílias, para construir um país, como aconteceu nos EUA. Vieram sós, para empreender e retornar.

Em função disso, exploraram da forma mais rápida e barata possível, formas geralmente destrutivas e deletérias, tanto para o meio-ambiente como para os escravos ou índios que obrigavam à lida. Esgotavam os solos, as pessoas ou as riquezas e logo os abandonavam à ação do tempo. Assim foi com o pau-brasil, com as plantações, com os escravos e com o ouro.

Essas práticas, é claro, entranharam-se na alma do brasileiro com o passar dos séculos. Como se transformaram em cultura, persistem até hoje, a despeito dos avanços tecnológicos, do maior rigor das normas e de outras conquistas da civilização.

O problema é que, quando flagradas nos dias de hoje, acabam implicando complexas questões sociais. O caso das olarias de Cássia é um bom exemplo. Para além dos problemas trabalhistas que ali devem se concentrar, a atividade não acompanhou como deveria as transformações econômicas e tecnológicas que impactaram a sociedade nas últimas décadas e ainda por cima continua explorando o meio ambiente de forma irracional e predatória.

Acontece que essa indústria, mesmo em decadência e em desacordo com a atual legislação, talvez em vários de seus aspectos, perfaz a segunda força econômica da cidade e representa o sustento de cerca de 800 famílias.

De saída, percebe-se a dificuldade enfrentada pelas autoridades envolvidas no caso. Se deixarem as coisas como estão vão contribuir ainda mais para a destruição do meio ambiente, o que seria inconcebível em um mundo cada vez mais consciente da importância da preservação ambiental. Além disso, se essas empresas continuarem com os mesmos processos de produção hoje utilizados tenderão a desaparecer no médio prazo. Em função de sua própria inércia, terão dificuldades em continuar concorrendo em um mercado cada vez mais competitivo.

No entanto, se essas mesmas autoridades as fecharem agora, estarão tirando de muita gente seu pão de cada dia, também uma garantia constitucional.

A situação é complexa, não há dúvida. Mas se olharmos o problema tentando perceber nele a oportunidade que se oferece em suas entrelinhas, iremos perceber que há luz no fim do túnel. Basta vontade política, criatividade e abertura por parte da sociedade e da iniciativa privada.

Um bom projeto de responsabilidade social e ambiental que envolvesse a Prefeitura, a sociedade e as construtoras da região poderia resolver o problema e trazer dividendos para todos os envolvidos.

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