Ibiraci tem comunidade que preserva até hoje os rituais afro


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TRADIÇÃO - Integrantes do Terno de Congo “Capitão Jacintho Honório Silva”, que mistura misticismo e folclore se apresentam em Ibiraci na última quarta-feira
TRADIÇÃO - Integrantes do Terno de Congo “Capitão Jacintho Honório Silva”, que mistura misticismo e folclore se apresentam em Ibiraci na última quarta-feira

José Bartolomero Narciso, 59, Honório Barsanulfo Rodrigues, 45, e Luci Rodrigues Isaias, 39, são pessoas com profissões comuns - respectivamente, marceneiro, tratorista e doméstica - em Ibiraci (MG). A diferença em relação aos outros moradores é que em datas especiais que remetem à luta do negro pela liberdade, como o Dia da Consciência Negra, comemorado neste domingo, elas deixam de lado a simplicidade de suas funções para assumir o papel de reis e rainha da comunidade negra da cidade. Formada por descendentes de escravos de diferentes etnias, a comunidade é uma das únicas existentes na região e ainda preserva rituais típicos da época das senzalas.

Tombado como bem imaterial do município mineiro, o reinado da comunidade é formado por cinco figuras: rei e rainha conga, rei e rainha perpétua e capitão de moçambique. O grupo mantém viva duas manifestações culturais que misturam misticismo e folclore: o Terno de Congo “Capitão Jacintho Honório Silva” e o Terno de Moçambique “Manhoso”. Nos dois casos, os grupos possuem seus próprios costumes, danças, cânticos e vestes para render honras aos seus padroeiros, de maneira especial, a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito.

Segundo pesquisas históricas do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural, a comunidade existe há cerca de 120 anos e reúne hoje 150 membros, além de familiares e simpatizantes. Com 95% dos integrantes de formação católica, tem como ponto de encontro a capela de Nossa Senhora do Rosário em Ibiraci. É nesta igreja, rica em detalhes e construída em 1852 por um capitão, que acontece a principal festa do grupo, a Festa de Maio.

“O 13 de Maio é mais celebrado que o 20 de novembro, já que Zumbi dos Palmares não teve grande influência para os escravos dessa região”, disse o historiador e presidente da ONG Probrig (Protetores da Bacia do Rio Grande), José Limonti Júnior.

Com um estatuto em ajuste para poder receber verbas do Estado de Minas de apoio cultural, a comunidade vive de recursos próprios obtidos em promoções, festas e rifas. A Prefeitura local também colabora e repassa o valor das licenças de comércio ambulante para a festividade anual, fornece transporte para as viagens e auxílios para vestimentas e instrumentos.

Ana Beatriz de Almeida, 43, faz parte do grupo de moçambique da comunidade. Com lenço na cabeça, saia e blusa de manga de tecidos coloridos estampados com flores e uma faixa vermelha transversal, ela dança com desenvoltura e, na falta do capitão, puxa o canto forte e ritmado. “Para mim é uma honra fazer parte do moçambique. Danço com orgulho e sinto como uma obrigação não deixar a tradição morrer.”

Por solicitação do Comércio da Franca, os ternos de Moçambique e de Congo fizeram uma rápida apresentação na última semana. No moçambique, as gungas acopladas aos tornozelos emitem um guizo que relembra o som das correntes dos escravos. No congo, as batidas dos tambores, além das fitas, bandeira e bastões, revivem um ritual africano.

“Os costumes, cantorias e a religiosidade de uma comunidade negra como a nossa permitem reconstituir os caminhos percorridos pelos escravos para se integrarem à nossa sociedade atual”, disse Limonti.
 

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