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Dinamar Lacerda Domiciano, em sua casa
Dinamar Lacerda Domiciano, em sua casa

O homem é realmente um ser social. Está condenado à vida em comunidade. Nessa convivência, influencia e é influenciado, não apenas pelo que é ou aparenta, mas, sobretudo, pelas atitudes e pelas ações que realiza. Às vezes, mesmo sem perceber, as pessoas podem ser decisivas na vida daqueles que as cercam. Pelo que fazem, defendem ou representam acabam incentivando outras a segui-las, servindo-lhes como exemplos de vida.

Dinamar Lacerda Domiciano, essa goiana de 48 anos, é um exemplo disso. Chegou a Franca com uma mão atrás e outra na frente, pedindo pelo amor de Deus por um emprego. Quando, depois de um tempo de apuros, conseguiu uma vaga como bordadeira em uma fábrica de calçados, tinha tudo para acomodar-se nessa posição. Afinal, tinha equilibrado suas finanças e, junto com o marido, José Augusto Domiciano, e com os filhos Kássia e Caio, podia agora levar uma vida mais tranqüila, mesmo que um pouco limitada em termos de rendimentos.

Mas alguma coisa ainda a incomodava. O emprego, apesar de tranqüilizá-la, não a satisfazia totalmente. Não que desdenhasse a profissão de bordadeira, ou não lhe reconhecesse mérito. Ao contrário, sente ainda hoje um enorme respeito por esse trabalho que durante anos lhe garantiu o complemento necessário para equilibrar as finanças da família. É que, quando aqui chegou, em 1999, já trazia em seu currículo um passado repleto de experiências, reconhecimento da comunidade em que convivia e a lembrança de que ganhava mais.

Na pequena Castelândia, sua cidade natal, localizada no sudoeste de Goiás, Dinamar já havia conquistado vários espaços. Ainda jovem, mesmo antes da formatura, foi contratada pelo único banco da cidade, onde ficou por 7 anos. Quase ao mesmo tempo, iniciou-se também no magistério. Apesar de não ter a formação necessária, seu perfil e a falta de professores a levaram à sala de aula, onde ficou por mais de 15 anos, chegando, inclusive, ao posto de diretora de escola, cargo que ocupou durante 2 anos. Além disso, desempenhou a função de juíza de paz, realizando vários casamentos em sua comunidade, e ajudava o marido na lanchonete e danceteria da família. Tentou espaço também na política, mas foi derrotada na única tentativa de obter uma vaga de vereadora.

No entanto, em Franca, de pouco lhe valeram todas essas experiências. Por não conhecer ninguém, não conseguiu indicações que lhe facilitassem a vida. Por ainda não ter o curso de Pedagogia, iniciado e paralisado duas vezes, também não conseguiu prosseguir como professora, mesmo tendo cursado magistério em 1994, ainda em Castelândia.

COMEÇAR DE NOVO
Com resignação, teve que começar tudo de novo. Acabou caindo em um setor que, de forma geral, prima pouco pelo apreço à educação. “Na fábrica de calçado não tem estudo. Não precisa. O pessoal só é ‘doutor’ em leis trabalhistas”, brinca Dinamar.

Para se adaptar, precisou “guardar no fundo do baú” toda uma história de vida dedicada aos estudos, algo que a constrangia e que afetava sua auto-estima. “Eu sentia que as pessoas olhavam para mim e se perguntavam por que uma professora estava trabalhando como bordadeira”, lembra Dinamar.

Em função disso, adquiriu o hábito de comprar o Comércio da Franca todo domingo, já que não tinha renda suficiente para tornar-se assinante. Além da leitura que sempre lhe agradou, tentava também encontrar nos anúncios alguma oportunidade que pudesse lhe renovar as esperanças de dias melhores.

Em um determinado domingo, um anúncio sobre a eleição da segunda turma do Conselho de Leitores do Comércio chamou sua atenção. Mesmo sem compreender totalmente o que aquilo significava, resolveu inscrever-se. Além da curiosidade que a instigou e da vontade de incrementar um pouco sua monótona rotina, o que mais a motivou foi a possibilidade de ganhar uma assinatura gratuita do jornal, caso fosse escolhida conselheira.

“Sempre gostei muito de ler jornal. Quando vi que poderia ganhar uma assinatura gratuita, não pensei duas vezes”, lembra Dinamar.

Alguns dias depois, para a sua felicidade, recebeu a notícia de que havia sido escolhida pela diretoria do jornal. Seria a representante dos sapateiros no Conselho. Ganhou sua assinatura e bons momentos de alegria. Mas nem de longe imaginou que em um curto espaço de tempo ganharia algo muito mais importante. Algo que mudaria novamente sua vida. Um novo recomeço, mais um dos vários que já havia experimentado em sua jornada.

Instigada pelas discussões que permeavam as reuniões, pelos argumentos de jornalistas e conselheiros e pela visão ampla que boa parte daquelas pessoas demonstrava ter sobre o mundo e seus acontecimentos, Dinamar acabou percebendo os limites de sua própria formação. Incomodou-a não apenas sua condição de sapateira, uma profissão simbolicamente mais modesta se comparada às outras que ali se perfilavam, mas também a limitação de todo o conhecimento que havia acumulado até então.

“Confesso que me senti um pouco envergonhada de ficar perto de gente com tanta inteligência”, diz Dinamar.

Nesse sentido, começou a questionar-se. De repente, tudo que havia feito até então lhe pareceu insuficiente. Os estudos realizados em Goiânia, uma insistência de seu pai - um pequeno sitiante que, apesar das dificuldades, não mediu esforços para formar os 13 filhos, ciente de que a educação seria o único bem que poderia deixar eles. Parecia insuficiente o curso técnico de Contabilidade concluído em Maurilândia, quando já trabalhava no Bradesco de Castelândia. E também os cursos de aperfeiçoamento que tinha realizado enquanto era professora do município e do Estado.

Quando passou a refletir mais profundamente sobre tudo isso, sentiu que precisava fazer alguma coisa para mudar a situação. Influenciada pelas reuniões e pelas pessoas que compunham o Conselho de Leitores, Dinamar percebeu que não poderia continuar em uma fábrica de calçados.

“De repente, ser sapateira já não me bastava mais. Não havia nenhuma perspectiva de crescimento”, desabafa.

VOLTA À ESCOLA
Retomou então o antigo e interrompido sonho do curso superior em Pedagogia. Para torná-lo factível, precisou compatibilizá-lo com o trabalho. Nesse sentido, optou por fazê-lo à distância, mesmo sem saber nada sobre essa modalidade de curso e sem muita intimidade com o computador.

“Sofri muito, porque tive que reaprender a estudar. E o curso de EAD exige muita disciplina por parte dos alunos. Além disso, precisava conciliar a casa e minha família”, lembra Dinamar.

Todo esse esforço, porém, foi compensado ainda durante o curso. Pela proximidade com o Polo da Uniube (Universidade de Uberaba), onde se matriculou, logo foi chamada para secretariar a unidade. No começo, tentou acumular os dois empregos, trabalhando em todos os períodos, mas logo percebeu que seria impossível coordená-los com os deveres da casa e da família.

Nesse sentido, não teve dúvidas. Abandonou a fábrica e dedicou-se totalmente ao novo trabalho. A aproximação com a escola e com os estudos, mesmo que bastante diferentes daqueles que vivenciou em Castelândia, trouxeram-lhe de volta o entusiasmo de antigamente.

Hoje, ainda secretária do Polo Uniube e também tutora do curso de Pós-Graduação em Psicopedagogia desse mesmo polo, Dinamar não esconde sua alegria e suas expectativas em relação ao futuro, no qual já se enxerga novamente como professora do município e também do Estado. E quem sabe, até mesmo diretora. “Aprendi muito no Conselho de Leitores do Comércio. Se não fosse pelo exemplo daquelas pessoas, pela cultura e inteligência que demonstravam com suas palavras e suas idéias, eu acho que estaria até hoje dentro de uma fábrica de calçados”, finaliza uma emocionada Dinamar. 

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