O professor chega à sala de aula. Os alunos se levantam, em respeito. Ao chegar à sua mesa, orienta: ‘podem se sentar’
Os estudantes se sentam, silenciosamente. Aguardam. Começa a chamada. Nenhuma gracinha. Aquele que se senta à mesa merece toda a consideração, a mesma consideração que, em casa, se dá aos pais ou ao visitante, a quem se dá o lugar de honra da mesa.
Inicia-se a aula. Os alunos acompanham, interessados. Surgem dúvidas. Perguntas. E há respostas que interessam a todos, mesmo aos que nada perguntam. Há diálogo e não se perde tempo. Cada segundo de aprendizado é importante. De quando em quando há a necessidade de correção. Todos aceitam. O ser humano repreendido sabe que é por uma boa causa. Há cumplicidade. De um lado, o que compartilha o que sabe. De outro, gente disposta a aprender. Por muito tempo, homens e mulheres de bem se formaram assim. E mestres se doaram totalmente, certos dos terrenos férteis que recebiam e de suas responsabilidades em fazê-los florir. A escola não era e nem tinha que ser casa de educação, e sim, era, casa de transferência de conhecimento, fomentadora dos – realmente – interessados em vencerem na vida. Muitos seguiram seus mestres e se tornaram professores de próximas gerações, já que ao educador se reservava, além de respeito, excelente remuneração. Dentre os mestres daquele tempo havia médicos, psicólogos, juízes, empresários. Suas outras profissões podiam oferecer compensações financeiras maiores, mas nada ultrapassava o gosto de formar espíritos críticos, gente de bem. A recompensa principal estava na satisfação interior do dever cidadão cumprido.
Educação se recebia em casa. E eram casas ricas e casas pobres, de pais simples e de pais doutores comungando a mesma educação, gentileza, sabedoria e cidadania. Os filhos aprendiam a respeitar a hierarquia e a quem lhes falasse sobre o que quer que fosse. Sabiam ouvir e jamais falariam ao mesmo tempo em que alguém falasse. Se houvesse o que contestar, faziam no tempo certo, nunca ao mesmo tempo. Empenhavam-se em causas justas e solidárias, odes às suas vidas limpas e às de terceiros menos providos. Aprenderam, com pais e mães que se prepararam para ser pais e mães responsáveis, que leis – boas ou ruins – têm sempre que ser cumpridas. Que, quando é justo ou necessário, é preciso dizer “muito obrigado”, “desculpe-me”, “bom dia”, “o que posso fazer por você”.
Era assim. Mudou. Escola, hoje, é perda de tempo. Professor é competidor que acha que sabe tudo, mas quem sabe tudo é meu amigo que puxa droga, que bebe muito porque todo mundo, hoje, bebe muito; que se fode e à sua família só prá dizer que “é dono de si, dono do mundo, e que comigo ninguém pode”. Aula é encheção de saco. Aprender matemática, geografia, história, ciências e adquirir conhecimentos gerais, prá quê? Este é o tempo da locupletação. Se posso ganhar bastante trabalhando pouco e dormindo muito, porque deveria me estraçalhar de trabalhar?
Este é o tempo de professores desrespeitados e agredidos fisicamente em sala de aula. É o tempo de pais e mães que acham que seus filhos estão sempre certos, mesmo que não saibam o paradeiro deles e o que fazem, com quem e onde. Hoje, se um filho tem problema, resolver tornou-se simples: é deixar prá lá ou lhe dar uma nota de R$ 100, para que ele resolva.
Estamos num mundo estranho, onde um “cara legal” é aquele que não tem medo de nada e onde a vida não vale merda nenhuma. Neste mundo esquisito, se a união do ‘cara legal’ com uma situação limite o leva a morrer espatifado, isso é visto, por outros jovens, como ação “digna de ser copiada”. Confesso minha tristeza. Pensei nos motoqueiros que foram “homenagear” companheiro que perdeu a vida em colisão frontal com carro na Portinari, garota à garupa – ontem, quando escrevi, não consegui mais informações sobre sua saúde depauperada após o acidente trágico – em cortejo de motos, no féretro de sepultamento. Um leitor deste Comércio, lúcido, não resistiu e comentou: “parecia que estavam a dizer: eu sou o próximo, podem aguardar”. É preciso entender que não há honra na morte que se procura.
Tristes jovens e tristes gerações que este mundo novo anda a produzir. Mal educados, donos do mundo, nervosos, cocô de galinha no lugar do cérebro. Onde vão chegar? Não vão chegar nem à idade adulta. E os que sobreviverem, se não lhes bater um átimo de inteligência, tornar-se-ão pais e mães a produzir mais ‘seres’ sem eira nem beira, incapazes de ver o lado bom e belo da vida. Sanidade e loucura, tênue linha de separação...
‘É HOMENAGEM’
Os motoqueiros estão na Internet defendendo como “homenagem’ o cortejo de motos empinadas e escapamentos abertos que seguiu o jovem morto em colisão frontal ao cemitério. Pobre conceito. Homenagem real, e triste homenagem, é a saudade e o sentimento de perda dos que realmente gostavam dele, pelos anos que não viverá, pelas conquistas que não empreenderá. Moto? Moto passa. O que resta, é a vida, quando a gente compreende que só ela vale...
BLOCO DE NOTAS
Medicina na Unifran – Quinta-feira, 17 de novembro, bem cedo, Clóvis Eduardo Pinto Ludovice – a quem acompanho de longa data, desde os tempos de fundação da escola Alto Padrão/Objetivo que deu origem à Unifran e, também, integrante do grupo que fundou o Rotary Sul (do qual tive a honra de participar) – me comunicou a homologação, pelo MEC, da Faculdade de Medicina da Unifran. Independente dos discursos prós e contras ao curso, a Unifran se consolida como ‘divisora de águas’ na história francana. O perfil da cidade era um e modificou-se completamente depois desta escola. Não há, com certeza, muitos exemplos de ações que impactem tão profundamente no perfil sócio-econômico e cultural de uma cidade, como esse. O mérito de Clóvis e sua instituição é, por isso mesmo, referencial.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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