Como disse Morgan Freeman, que encarna Red, “Um sonho de Liberdade” (The Shawshank Redemtion´s), o filme, é uma história de amor sem sexo entre dois homens. Uma longa história em que um participa do crescimento mental e espiritual do outro, em condições quase sub-humanas de existência, em uma prisão Shawshank - nos anos 40, EUA.
Shawshank, o presídio, é dirigido por um religioso ortodoxo, com ideias e modo de dominação fascista dos prisioneiros. O filme é encenado em uma prisão reformada e os atores registram a atmosfera impregnada nos muros e tijolos, a tristeza opressora, cimentada, das pessoas que ali sofreram.
Quem não consegue (por qualquer motivo) dominar seus impulsos é uma pessoa condenada, “institucionalizada”, presa na gaiola psíquica de uma mente incapaz de pensar, de sentir, de escolher. Estado análogo ao condenado à prisão: detrás de barras de ferro, de muros de pedra.
Andy, jovem banqueiro, foi para a prisão alegando inocência pelo suposto assassínio de sua esposa e do amante, um jogador de golfe, em fragrante intercurso sexual. Na prisão conhece Red, um irlandês, preso há 20 anos, que administra o mercado negro do presídio. O filme é narrado por Red, que acompanha a chegada de Andy à prisão. Os prisioneiros apostam quem vai desmoronar, em sua primeira noite na prisão. Red aposta em Andy e perde. Observa, intrigado, as atitudes de Andy, que circula, como que “envolto em um manto invisível”, a defendê-lo do ambiente ao seu redor. Andy tem interesse em Geologia, e Red, grande estudioso de Andy, nos informa que a Geologia é o estudo da terra, transformada pela Pressão e pelo Tempo. Metáfora rica para o condenado ao presídio.
A Pressão é o confinamento ao presídio, a submissão a regras, a perda da humanidade (sonhos e esperanças), ao longo de um Tempo infinito (o tempo da vida sopesada de cada prisioneiro). Red observa como Andy usa da sua experiência na prisão, o caminho a lhe permitir desenvolver Coragem, Solidariedade, quebrando o seu isolamento férreo e mortífero. Red vê a queda de Andy, ao infernal sub-mundo do crime e da arbitrariedade dos carcereiros, liderado pelo Diretor do presídio, que saúda o recém-chegado com a Bíblia e com o terror a ele (Deus e Lúcifer?).
Andy, jovem e bem sucedido banqueiro, para se defender do universo perverso, faz a lavagem de dinheiro para o Diretor, e se vê “protegido” de situações de violência, vivida nos primeiros anos de prisão. Adquire alguns privilégios. Continua em um mundo-gaiola, mas é a sua persistência e paciência que lhe permite materializar sabores de liberdade, como p.e.. a ampliação da biblioteca dentro do presídio. Andy compartilha com os outros condenados estas conquistas. Preserva uma liberdade íntima, intocável, não submete seu mundo interno à realidade carcerária.
Há momentos antológicos no filme. Andy, “como o protegido”, coloca em um microfone aberto para o presídio uma ária de Mozart, o casamento de Fígaro, cantada por uma soprano. Os condenados se enlevam e o Diretor enlouquece. Na mesa do refeitório, depois de sofrida a punição pelo ato “rebelde”, Andy diz aos companheiros que Mozart estava com ele na solitária, no seu espaço interior (faz gesto indicando a cabeça e o coração), que não o deixava esquecer-se de lugares onde ninguém consegue entrar.
Red, “gato escaldado”, teme a perigosa Esperança, sente-se “institucionalizado”, para sempre prisioneiro. Por três vezes a banca lhe pergunta a mesma pergunta: “você está regenerado?” “pode voltar a viver em sociedade?”. Ao responder automaticamente às perguntas Red é rejeitado. Da segunda vez, 30 anos preso, ganha uma gaita de Andy, como que a lembrá-lo da esperança. Da terceira vez a comparecer à banca, Red faz uma reflexão profunda, genuína. Sua fisionomia o demonstra: afirma ter conversado todos os dias em que esteve preso com o jovem sem juízo que um dia foi e que este jovem não existia mais, somente o velho. Teria Red esta reflexão sem a experiência de amizade com Andy?
A Alma se “institucionaliza” quando capitula, “morre” humanamente falando. Redenção é a “des-institucionalição”, o resgate a si mesmo. Ao final do canal de esgoto (o sub-mundo), de braços abertos a beber a água dos céus, em batismo purificador - Andy é Criador e Criatura do seu novo mundo. Andy resgata Red, ao indicar um sonho, uma esperança oceânica, azul, guardada, intocável, a salvo da realidade de Shawshank.
Acontece a “institucionalização” quando cremos que somos o que somos, e não-nada-nunca mudaremos. Cada um tem um Shawshank e a difícil, longa Redenção, o Perdão e o próprio resgate ao Inferno a que se condena.
O DIRETOR
Frank Darabont
Sucesso na crítica, mas não de bilheteria, o filme resenhado, Um sonho de Liberdade, estreou em 1994, nos EUA, baseado em uma novela de Stephen King, “Rita Hayworth e Shawshank Redemtion”. Com sete indicações ao Oscar, não levou nenhum: Melhor Filme, Melhor Ator (Morgan Freeman), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Som. Um Sonho de Liberdade está em 72. lugar na lista dos melhores filmes, segundo o American Film Institute.
O diretor e roteirista Darabont nasceu em um campo de refugiados, na França. Seus pais fugiram da Revolução Húngara, de 1956, e rumaram para Chicago, e depois para Los Angeles, quando Darabont tinha 5 anos. Ele já foi indicado ao Oscar de Melhor Diretor para dois outros filmes (também não levou nenhum), baseados igualmente em contos de Stephen King, e fez os roteiros: The Green Mile, À espera de um milagre, 1999 e The Mist, O Nevoeiro, 2007, conto e filme de terror.
Ter nascido em um campo de refugiados contribuiu para que Frank Darabont trabalhe tão bem o tema da Liberdade em seus filmes, e o sentimento mágico, profundo, que brota da Amizade - o da Solidariedade?
Serviço
Título em português: Um sonho de liberdade
Título original: The Shawshank Redemption
Lançamento: 1994 (EUA)
Direção: Frank Darabont
Atores: Tim Robbins, Morgan Freeman, Bob Gunton, William Sadler.
Duração: 142 min
Gênero: Drama
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