Advogado dos Nardoni diz: 'Não havia provas para a condenação'


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PAPEL DE ADVOGADO - O criminalista Roberto Podval admite que, no julgamento do casal Nardoni, fez, às vezes, papel de advogado do diabo
PAPEL DE ADVOGADO - O criminalista Roberto Podval admite que, no julgamento do casal Nardoni, fez, às vezes, papel de advogado do diabo

Roberto Podval, 45, é uma referência no País em casos complexos da área criminal. Seu nome aparece com frequência na mídia. Nos últimos anos, ele esteve à frente de casos de enorme repercussão. Dono de um conceituado escritório em São Paulo, atua em mais de mil processos, um número elevado considerando-se que são apenas ações criminais. A maioria, de difícil defesa. Para dar conta da demanda, conta com uma equipe formada por 16 advogados.

Entre os clientes famosos de Podval estão o iraniano Kia Joorabchian, investigado pela Polícia Federal por lavagem de dinheiro durante a parceria da empresa MSI com o Corinthians; o médico Farah Jorge Farah, condenado por matar e esquartejar sua amante, a dona de casa Maria do Carmo Alves; e Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, acusado de envolvimento no assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel. Nenhum outro caso, porém, foi mais complexo e polêmico do que aquele que parou o País em março do ano passado.

Foi de Roberto Podval a missão de provar que Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá não mataram a menina Isabella. A garota, que tinha 5 anos na época do crime, mesma idade de uma filha do criminalista, foi esganada e jogada da janela do apartamento do casal, na zona norte de São Paulo na noite de 29 de março de 2008. O júri popular levou cinco dias e terminou na madrugada de 27 de março de 2010. O pai foi condenado a 31 anos, 1 mês e 10 dias de prisão. Anna Carolina, a 26 anos e 8 meses. “Tenho certeza, pelo que está nos autos, que nós caminhamos para um dos maiores erros judiciários que este País já teve”, disse o advogado.

A afirmação foi feita durante entrevista exclusiva concedida ao Comércio no fim da tarde do último dia 26. Roberto Podval esteve em Franca para fazer uma palestra na sede da OAB. Antes de falar para uma platéia de advogados e estudantes de direito, o criminalista visitou a sede do GCN e contou como é atuar em casos tão complexos. Para ele, não há como explicar a repercussão da ocorrência envolvendo o casal Nardoni.

Ao defender o casal, o advogado tornou-se inimigo da sociedade. Ele conta que teve dificuldades para sair de casa. “Fui agredido. A coisa foi tão desproporcional. Cada dia eu ia ao Fórum com um carro diferente. Eles batiam no carro, jogavam pedra. Um dia fui almoçar perto do Fórum e apanhei na rua. Foi um julgamento longo, cansativo e triste.” Mesmo pressionado duas vezes, Podval não disse que acredita na inocência do casal. Afirmou apenas que, tecnicamente, não havia provas para a condenação do casal. Por conta da atuação no júri, ele foi homenageado como “advogado do ano” pela FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas), onde formou-se em 1988.

Em junho, Roberto Podval trocou as páginas policiais pelas colunas sociais.Tudo por conta do suntuoso casamento na Ilha de Capri, na Itália. O criminalista fechou um hotel para 200 pessoas com direito a hospedagem gratuita e show do cantor Peppino de Capri. Entre os convidados, estava o ministro do Supremo Tribunal Federal, José Antônio Dias Toffoli, que atua em casos defendidos pelo criminalista. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Comércio - Por que o senhor está sempre no centro de alguma polêmica?
Roberto Podval -
Acho que é um pouco de coincidência. As coisas vão chegando naturalmente. Você pega um caso, o resultado é bom, você dá um pouco de sorte, tem um pouco de competência, bons amigos, tem uma certa divulgação e uma coisa chama outra. A verdade é que tudo começou com muita dedicação. Grande parte da minha vida vivi o Direito.

Comércio - O senhor sempre atuou na área criminal?
Podval -
Sim. Quando me formei, eu trabalhava em um escritório que tinha todas as áreas. Ai, o dono me disse: ‘Se você quiser ir para qualquer outra área, aqui tem espaço. Na área criminal, não’. Então, decidi ir embora e montei uma portinha. Como não tinha muitos clientes, eu lia o “Diário Oficial”, ficava vendo os julgamentos que aconteciam. Fui ser “porta de cadeia”. Tinha uns amigos delegados e, quando chegava alguém preso, me ligavam e eu ia para lá. Também ia para os presídios e procurava atender bem. No final, tinha fila de presos para eu atender. Comecei do nada. Muito de baixo. Estou há 23 anos na profissão.

Comércio - A ocorrência envolvendo o casal Nardoni foi a mais complexa de sua carreira?
Podval -
Não. Acho que o mais complexo é o próximo. Sem dúvida alguma, o caso teve uma repercussão muito grande, o que é um pouco inexplicável. Fico pensando: o que leva um caso ter a repercussão que teve o caso Nardoni? No que ele difere de tantos outras ocorrências semelhantes? Este tipo de coisa, infelizmente, temos diariamente: brutalidades, escândalos, fatalidades. Na mesma época dos Nardoni, teve um episódio, em São Paulo, de uma pessoa que teve uma crise, que tinha duas crianças no carro. Elas foram jogadas contra uma árvore, contra um carro. O caso teve uma nota no jornal e desapareceu. Outros têm a repercussão que teve os Nardoni. Inexplicável.

Comercio - A explicação não seria o fato de um criança ter sido jogada do alto de um prédio e o pai ser o principal suspeito?
Podval -
Claro, mas outros fatos não tiveram o mesmo destaque. É que este, talvez, por envolver gente de classe média, talvez, porque naquele momento faltava matéria...não sei. Caberia um trabalho sociológico para entender o que fez aquele caso ter a dimensão que teve. Fugiu da normalidade. O problema é saber se, num caso como este, o julgamento popular pode ser equilibrado.

Comercio - O senhor quer dizer que a opinião pública foi influenciada e contaminou os jurados?
Podval -
Não tenho dúvida que influenciou, não tenho dúvidas de que os jurados estavam contaminados. Não por culpa da imprensa, mas porque a sociedade deu eco a isto, a sociedade ia lá na porta do Fórum clamar, não por Justiça, mas por vingança. A questão é: como é possível um caso ficar colocado na imprensa por dois anos, quase que totalmente só o lado da acusação, e a defesa ir para o júri imaginando que o julgamento poderia ser equilibrado? Isto, não era possível.

Comercio - O que fazer nestes casos?
Podval -
Este é o problema. Não há possibilidade de se ter um julgamento equilibrado, de forças iguais, porque todos os que estão ali já têm um pré-julgamento. Não tenho como, em duas, quatro ou seis horas fazer provas diferente do que fizeram em dois anos. No caso dos Nardoni, não tinha para onde levar este júri. Do Oiapoque ao Chuí [municípios nos extremos do país], o caso era conhecido e falado em mesa de bar. A pergunta é o que fazer nestas situações e eu digo, a lei não trata disto. O caso Nardoni passou a ser um exemplo, um marco para a gente se obrigar a fazer alguma coisa. Caso contrário, o papel da Justiça, do júri, vai ser só um papel formal. Minha função ali era defender alguém dignamente. Fiz às vezes o papel do advogado do diabo, mas fiz o meu papel.

Comercio - O senhor, realmente, acreditava na inocência de Alexandre e de Ana Carolina?
Podval -
Eu, realmente, acredito que, qualquer um que ler o processo, não pode chegar ao resultado da condenação. O processo não traz provas de que eles mataram a menina.

Comercio - E as marcas de sangue, e as marcas da camisa de Alexandre encontradas pela perícia na tela da janela do apartamento?
Podval -
A perícia vai até a metade. Num determinado momento, a gente compara a nossa perícia com a norte-americana. No júri, foi montada uma maquete com marcas de sangue. No laudo, tinham sinais em algumas lugares que não apareciam na maquete. A perita disse que tirou porque não conseguia encaixar os sinais com a sua dinâmica. Ela não mudou a dinâmica, tirou o sinal. Por outro lado, eles usaram um produto para realçar o sangue. Fiz o teste em casa. De fato, fica fosforescente, mas também fica com sangue de animal ou de carne, por exemplo.

Comercio - Se o casal Nardoni não matou a menina, quem matou?
Podval -
Este, é o grande problema porque as pessoas precisam de um culpado. O que a sociedade não está preparada para aceitar é o fato de que não se sabe. E, em não se sabendo, não tem outra solução senão absolvê-los. Tivemos um caso parecidíssimo em Portugal, da Madeleine, em que os pais foram apontados como acusados. A sociedade inglesa, porque não tinha provas, abriu uma conta no banco, juntou dinheiro e deu para a família se defender. Aqui, provavelmente, eles seriam condenados. Tenho certeza, pelo que está nos autos, que nós caminhamos para um dos maiores erros judiciários que este País já teve. Não porque eu afirme que são inocentes, mas porque afirmo que, com aquelas provas, eles não poderiam ter sido condenados.

Comercio - Não há provas, mas o senhor também não confia na inocência do casal...
Podval -
Não é que não confio. Trabalho com as provas. Uma coisa é dizer o que acho, minha opinião pessoal vale tanto quanto a de cada um. Sou um técnico. Qualquer técnico imparcial que for ler o processo chegará a conclusão de que não tem provas para condená-los.

Comercio - O senhor ficou novamente no centro de nova polêmica em junho por conta de seu casamento na Itália. O senhor custeou a viagem do ministro Toffoli?
Podval -
Isto foi uma grande e maldosa bobagem. Me casei, no segundo casamento, com uma mulher que tem família, que tem casa na Itália. Por que na Itália e não aqui? Porque eu conheço tanta gente e não tinha como fazer uma festa pequena aqui. Não daria para convidar todos os amigos. Fiz uma festa muito pequena lá no próprio hotel para a família e poucos amigos. Foram cem casais. Ficou mais barato do que fazer uma festa aqui para mil e poucas pessoas. Para todos os convidados, mandei o convite com estadia de um dia de hotel. Não paguei passagem para ninguém. Tudo que teve o ministro todo mundo teve.

Comércio - O problema é que o ministro julga processos em que o senhor atua. Não há conflito de interesse?
Roberto Podval -
Não há conflito nenhum. A lei é expressa em dizer que, se há conflito, não posso ser parte e ele não pode me julgar. Sou amigo dele e de muitos outros. Sou advogado e convivo neste ambiente. Minha primeira mulher era juíza e eu frequentava a casa de juízes. Tive apenas um caso com o ministro e perdi. Ele votou contra. A experiência mostra que os amigos são muito mais rigorosos nos casos com quem tem alguma relação.

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