Em sua quarta visita ao Brasil, que se encerrou semana passada, Tenzin Gyatsu, o 14º Dalai-lama na ordem da sucessão na liderança espiritual do budismo tibetano, falando para 6 mil pessoas no Anhembi, em São Paulo, disse que à geração atual compete a missão de criar uma sociedade mais justa e, portanto, sem perversão social.
Propôs, ainda, a instalação, nas diversas fases do ensino escolar, desde o jardim da infância até a faculdade, da ética capaz de vencer a corrupção, que considera o ‘novo câncer do mundo’.
Ao demonstrar otimismo quanto à possibilidade da convergência religiosa no sentido da implantação de uma nova ética social, aproximou-se do pensamento de Allan Kardec, constante da introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo, onde o codificador afirma que o ensino moral do Cristo é o mesmo em todas as religiões, podendo, portanto, irmanar a todos.
É que a moral de Jesus, enquanto ensinamento, independe de interpretação, de exegese, sendo, por conseguinte, o denominador comum de todas as culturas religiosas mesmo que algumas delas não lhe admitam a origem.
Ainda, segundo Kardec na mesma obra, ‘é o terreno onde todos os cultos podem se encontrar.’ Dalai-lama realçou algumas doutrinas budistas, uma das quais a da reencarnação, não exatamente como ensinada pelo Espiritismo, já que, para este, quem reencarna é o espírito que necessita progredir moralmente. Outro ponto divergente diz respeito a atributos de Deus. Para a Doutrina Espírita, Deus é ‘a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas’, ensinamento da questão número 1 de O Livro dos Espíritos, obra basilar dos espíritas que nutrem a convicção de que Deus é único.
Não pretendemos formular qualquer juízo de valor, mas evidenciar o pensamento espírita no que respeita à nossa convicção do que sejam atributos do Criador.
O Espiritismo também não comunga com algumas crenças budistas, segundo as quais a reencarnação só se daria, exclusivamente, na mesma classe, afastada a possibilidade de o espírito reencarnar em outra, independentemente das suas necessidades evolutivas.
Para os espíritas, há uma franca mobilidade social no processo reencarnatório, sempre determinada pelas implicações morais de que se carrega o psiquismo do indivíduo.
Reencarna-se segundo as necessidades de evolução, portanto nas mais diversificadas condições sociais.
Ora somos dirigentes, ora dirigidos; ora ricos, ora pobres; ora homens, ora mulheres. Tudo se dá segundo o imperativo da lei de causa e efeito, e como oportunidade de reparação dos prejuízos que tenhamos causado no uso do livre-arbítrio.
Tem, ainda, o sentido de submeter-nos às injunções do tecido social a fim de colhermos as experiências de que somos carentes e, ao mesmo tempo, colaboramos para o avanço do meio em que vivemos.
Com a nossa vivência, aprendemos e ensinamos até que possamos vencer a ‘samsara’, na linguagem budista, a roda das reencarnações. Nisso, concordamos com o budismo!
Felipe Salomão
Bacharel em Ciências Sociais, diretor do Instituto de Divulgação Espírita de Franca
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