Não é fácil explicar. As denúncias de crimes de abuso sexual geralmente chocam a sociedade, apesar de serem, infelizmente, bastante comuns em nossos dias. Com certeza por envolverem crianças e adolescentes, seres ainda em formação e por isso mesmo mais vulneráveis e indefesos. Sofrem, porém, um acréscimo de espanto, revolta e incredulidade quando os envolvidos são expoentes da sociedade, pessoas no exercício da profissão ou familiares das vítimas.
Quando esses casos envolvem sacerdotes, independentemente da religião que professam, esses sentimentos se intensificam ainda mais. Geralmente as religiões pregam o amor e o bem e defendem a ética e a moral. Fazem tudo isso pela voz e pelas atitudes de seus sacerdotes, em quem seus crentes e devotos colocam toda a sua confiança.
Quando algum deles se vê envolvido em casos do tipo, é bastante compreensível que tal situação abale as certezas e convicções daqueles que crêem. Como se trata de fé, e não de racionalidade, muitos se confundem. Sentem dificuldade para enxergar claramente a questão e acabam jogando para o seio do divino aquilo que caberia aos homens resolver.
O caso recente do Padre Dé não foi diferente. Pessoas que, provavelmente, com ele convivem há muito tempo se recusam a ‘enxergar’ os fatos. Resistem, na verdade, desde o início do processo. Posicionaram-se contra a denúncia do MP (Ministério Público), contra a ação da polícia, contra as notícias veiculadas no jornal... A despeito dos testemunhos e das provas que foram sendo arroladas durante o processo, essas pessoas ainda resistem em aceitar a decisão da Justiça, recentemente divulgada, e que condenou o padre Dé a 60 anos e oito meses de prisão.
Nesse sentido, é louvável a atitude do Bispo Dom Pedro Luiz Stringhini. De forma corajosa, veio a público e reconheceu respeitosamente a ação da Justiça, pedindo perdão aos fiéis e à sociedade pelo erro de seu sacerdote. Se levarmos em consideração que o abuso sexual é um tema bastante espinhoso para a Igreja Católica nos dias atuais, podemos ter uma dimensão do desafio que teve que enfrentar.
De qualquer forma, o enfrentou. Honrou a igreja que representa, tomando a única atitude que dele se poderia esperar. Uma atitude que, se não convence a todos, pelo menos demonstra a integridade e a coerência, não apenas do Bispo, mas também de toda a instituição, que não pode ser julgada pelo erro de um único homem.
Apesar dessa atitude acertada, no entanto, Dom Pedro Luiz parece ter se esquecido das vítimas desses abusos, assim como aqueles que resistem a acreditar na sentença da Justiça. Ao pedir desculpas apenas à sociedade e aos ofendidos, permitiu pensar que o fez pensando em resguardar e defender a imagem da igreja. Legítimo. Porém, para que o arrependimento seja institucionalmente pleno, faltou dirigir-se às vítimas e seus familiares. No caso, os principais ofendidos.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.