Reportagem de Edson Arantes e Marco Felippe
A notícia de que o padre José Afonso Dé, 76, foi condenado a 60 anos e oito meses de prisão pela prática dos crimes de estupro e atentado violento ao pudor caiu feito uma bomba em Franca. A informação foi divulgada com exclusividade pelo Comércio da Franca, ontem, e teve repercussão nacional. O bispo da Diocese de Franca, Dom Pedro Luiz Stringhini, afirmou que ficou sabendo da sentença pelas páginas do jornal (leia mais em texto nesta página). As vítimas ficaram aliviadas e disseram que a pesada condenação imposta pela Justiça comprova que as denúncias eram verdadeiras. A defesa de padre Dé admitiu a punição e disse que aguarda julgamento de recurso impetrado junto ao Tribunal de Justiça de São Paulo.
Em março de 2010, quatro meninos com idades entre 12 e 16 anos, que eram coroinhas e frequentadores da Paróquia São Vicente de Paulo, denunciaram ao Conselho Tutelar que o padre Dé os teria molestado. Os abusos teriam acontecido na casa do religioso, após as missas. Com base nos relatos, foi aberta investigação que culminou com a condenação aplicada pela 2ª Vara Criminal.
O Comércio conseguiu confirmar com quatro fontes, ao longo de dez dias, o resultado do julgamento. A publicação de despachos relativos ao recurso impetrado pela defesa, no Diário Oficial Eletrônico, também confirma as informações apuradas.
Na tarde de ontem, a repor-tagem voltou à região do Jardim Tropical, onde moram os adolescentes que denunciaram o padre, e conversou com duas vítimas e uma testemunha de acusação. A sensação era de alívio. “A Justiça foi feita. Quando fiquei sabendo da notícia nem acreditei. Pensei, será? Só depois que peguei o jornal vi que era verdade”, disse um dos meninos.
Em casa no horário do almoço, o adolescente de 16 anos, que na época revelou a “brincadeira do pirulito” (segundo ele, o padre apertava o órgão genital e dizia “pirulito”), se mostrou contente e ao mesmo tempo surpreso com a condenação. “Fui umas duas ou três vezes no Fórum. Achei que o processo havia sido esquecido. Nossa, é um alívio!”
Ainda frequentador da igreja no bairro, outro menino que denunciou o padre ficou sabendo da condenação por um parente. Para ele, a Justiça “foi feita e mostrou que a gente (o grupo de meninos) não estava mentindo”. “Fico feliz por ele (o padre Dé) e triste pela Igreja Católica por ter pessoas assim. A Justiça demorou, mas foi feita. Sessenta anos e oito meses é uma boa condenação, mesmo se ele ficar em casa. Está ótimo.”
Testemunha de acusação, um jovem maior de idade, que inclusive participou das investigações, não escondia a satisfação com a condenação. “Tardou, mas não falhou. A Justiça foi feita, estou com sentimento de dever cumprido”, disse com sorriso no rosto.
Outro menino, que havia morado na casa do padre Dé no Tropical e na época disse que o padre tinha tentado beijá-lo na boca, à força, foi localizado, mas não quis relembrar o caso.
A DEFESA
Depois de um advogado informar que o caso ainda não havia sido julgado, outro defensor de Padre Dé reconheceu a veracidade da notícia revelada pelo Comércio e admitiu que padre Dé foi condenado a 60 anos e oito meses de reclusão em regime fechado. “Infelizmente, não posso dar detalhes por causa do segredo de Justiça, mas a reportagem é verdadeira. Houve a condenação e ingressamos com um recurso”, afirmou o advogado Eduardo Caleiro Palma, que também atua no caso. Na sexta-feira, José Chiachiri Neto, autor do pedido de habeas corpus feito em junho, disse que o processo ainda estava em andamento.
A Igreja não comentou a condenação sob a justificativa de que não havia sido comunicada oficialmente a respeito. A apuração aberta pelo Tribunal Eclesiástico para apurar a conduta do vigário segue sem conclusão. Divulgada a sentença a que foi submetido, padre Dé deixou sua residência e não foi mais encontrado.
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