Em tempos bem distantes, prefeito não proferia ofensas a vereadores nas arcádias ou mesmo em palcos apropriados. Naquela época, ainda não havia o rádio. Nem a rádio, claro! Da outra parte, também os edis nada diziam em plenário contra o alcaide. No entanto, as rusgas e desavenças eram muito parecidas às de agora.
Por seu turno, o povo apenas ouvia. Não participava das decisões. Não podia opinar. Só uma minoria se manifestava. Mesmo assim, era preciso alterar as personalidades envolvidas nos fatos levados a público. Para escrever à mão nos pergaminhos (a imprensa só seria inventada no século XV), tornava-se necessário criar personagens-animais, agindo como gente.
Sabedor disso, o filósofo e religioso francês Jean Buridan (1300-1358) escreveu a fábula “O asno de Buridan”. Na verdade, o fabulista da França buscou inspiração no livro De Caelo, escrito por Aristóteles, na Grécia antiga. O autor grego usava cachorros como personagens. Assim, não se referia diretamente aos dirigentes da cidade. Ele não era besta de dar nomes aos bois.
Certa feita, de tanto a elite governante abocanhar mais e mais dinheiro arrecadado do povo em nome dos deuses da Grécia, o Estado começou a entrar em declínio financeiro. Aristóteles não teve dúvidas. Escreveu uma fábula com este enredo: um cachorro diante de dois suculentos pedaços de carne não tem a mínima condição racional para escolher entre um deles. Engole os dois de uma só vez.
Quando chegou a Idade Média, o dilema passou a ser outro. Governar queria dizer abrir novas trilhas, construir pinguelas sobre um riacho. O cavalo ainda não estava totalmente domesticado. Até então, só o asno servia como meio de transportes. Acontece que muar não gosta de água. Ao contrário do cavalo, reluta em atravessar qualquer rego d’água.
Durante as viagens de mais de um dia, o asno chegava cheio de fome e sede à beira de riachos. Neste local encontrava viçoso capim e límpida água. No entanto, punha-se a pensar no que fazer primeiro. Não adiantava o asneiro forçar a escolha. O bicho ficava empacado, sem comer nem beber. Devido à fraqueza, acabava morrendo.
Pensando que os asnos morriam por ter de atravessar as águas, o rei projetou uma espécie de ponte. Dois compridos e fortes troncos de árvores seriam postos para ligar os dois sopés. Galhos mais finos, transversais aos troncos, possibilitariam a passagem. Só que os semoventes enfiavam os cascos nas gretas. A travessia se transformou em um autêntico mata-burro. Aliás, do cruzamento de asna com cavalo ou vice-versa nasce o burro, animal híbrido que, apesar do nome, é capaz de atravessar mata-burro. A narrativa “O asno de Buridan” foi escrita com o intuito de passar esta lição de moral: toda escolha deve ser adiada até que se tenha mais informação sobre o resultado de futuras ações.
Antônio Araújo
Articulista e professor – tonin.palavras@uol.com.br
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