O ex-presidente Lula nunca foi nenhuma unanimidade. Longe de denegri-lo, esse fato o engrandece, pois como dizia Nelson Rodrigues, toda a unanimidade tende a burrice.
Adorado pelas classes trabalhadoras e por parte de nossa intelectualidade, durante muito tempo atemorizou nossos empresários, as elites e boa parte das camadas médias da população.
Polêmico, sempre se dispôs à luta. Militou nas filas da esquerda, presidiu sindicatos, lutou contra a ditadura, ajudou a fundar o PT, entrou para a vida pública e elegeu-se presidente, não sem antes absorver duas derrotas que pareciam liquidá-lo politicamente.
Como fênix, renasceu das cinzas. Ganhou as eleições e assumiu a presidência. Imediatamente começou a experimentar as pressões e mazelas do poder. Apesar da guinada social que projetou em seu governo, foi obrigado a continuar a política econômica de seu antecessor, bastante presa aos ideários do liberalismo, algo contra o qual sempre lutou. Dessa forma, teve que desistir de antigos ideais, trocando-os ou mesclando-os com outras ideologias. Mais rápido do que se esperava, aprendeu sobre a governabilidade. Aproximou-se de quem antes criticava e fez acordos com quem antes discordava.
Apesar de já ser mestre, aprimorou-se ainda mais na arte da política. Passou por escândalos de maneira incólume. Fez e desfez ministros. Reelegeu-se e ainda fez sua sucessora, mantendo índices altíssimos de popularidade e aprovação.
Carismático, sempre soube lidar com as massas, com a mídia, com a imprensa e com os políticos que lhe cruzaram o caminho.
Hoje, após deixar o poder e transformar-se outra vez no velho Lula, importante articulador agora não apenas do PT, mas também de toda a esfera política brasileira, o ex-presidente mostra novamente seu lado democrático e carismático.
Ao saber do câncer que agora o acomete, não dissimulou ou se escondeu. Como homem público, está dando grande exemplo de transparência. Apesar da delicadeza da situação, que geralmente é reservada para a intimidade da família e dos amigos, Lula abriu-se a toda a mídia, sem nenhuma reserva, medo ou restrição.
Atitudes como essas são importantes para o fortalecimento da democracia, pois o homem público não pode abrir-se à imprensa e ao país apenas quando lhe interessa aparecer. Se carrega uma imagem pública, a despeito de estar ou não em exercício de cargo público, deve aceitar o fato de que sua vida e seu tempo serão insistentemente ‘invadidos’ pela mídia, já que tudo o que acontece com ele pode repercutir no âmbito de toda a sociedade.
Além disso, o fato de enfrentar de peito aberto uma doença que continua a assustar boa parte das famílias brasileiras, Lula também dá um exemplo de que a única saída em uma situação como essa é enfrentar os desígnios da natureza.
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