Olarias e cerâmicas de Cássia lutam contra extinção


| Tempo de leitura: 2 min
EM QUEDA  - Rosemilton Oliveira Rios, dono de uma olaria e presidente da associação de Oleiros de Cássia: “Total de olarias caiu pela metade em  dez anos”
EM QUEDA - Rosemilton Oliveira Rios, dono de uma olaria e presidente da associação de Oleiros de Cássia: “Total de olarias caiu pela metade em dez anos”

Uma tradição de meio século que garante o sustento de cerca de 800 famílias está ameaçada de extinção em Cássia (MG). Considerada uma das mais importantes atividades econômicas do município de 17.428 habitantes, a fabricação de tijolos e cerâmicas sofre com o avanço da mecanização, com a falta de mão de obra e com o impacto ambiental causado pela extração da matéria-prima de maneira irregular.

Neste ano, fiscalizações de órgãos ligados à proteção mineral paralisaram as atividades em um dos pólos oleiros da cidade por dois meses. O retorno só foi possível graças a um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) firmado com a Procuradoria da República.

Rosemilton Oliveira Reis, presidente da Associação de Oleiros da cidade, diz que o número de olarias em Cássia caiu para menos da metade em dez anos. Até o começo dos anos 90, existiam cerca de 120 olarias artesanais. Em 2000, eram 60. Atualmente, a associação tem registrada apenas 28 olarias e 6 cerâmicas. “A associação foi formada há um ano e meio na tentativa de não deixar a tradição morrer. Já tivemos muitas perdas e não queremos que as olarias acabem de vez.”

Produto básico das construções de alvenaria da região, os tijolos de barro produzidos na cidade mineira são vendidos num raio de 250 quilômetros, tanto em Minas como em São Paulo. Segundo dados da Associação de Oleiros, Cássia produz 3 milhões de tijolos (comum e baiano) por mês.

Verde Moreira, 60, hoje pedreiro, trabalhou por quatro décadas como oleiro. Ele disse que, a partir do momento em que a mecanização passou a ganhar força, muitas empresas fecharam por não ter condições de colocar máquinas. Apesar de dizer que a mecanização foi a primeira ameaça à confecção de tijolos, o pedreiro diz que a adoção das máquinas foi necessária para acompanhar a demanda de mercado. “Anteriormente, uma olaria produzia 20 mil unidades por semana. Hoje, com as máquinas, essa quantidade é produzida por dia.”

Além do custo alto do equipamento, que acarretou no fechamento de dezenas de olarias, as que sobreviveram tiveram que reduzir seu quadro de trabalhadores drasticamente. Com a máquina, um trabalho feito por 15 pessoas passou a exigir apenas 8 funcionários.

Funcionando próximas a poços de lamas, a paisagem do local se assemelha a um garimpo e causa repulsa pela “sujeira” que provoca, inclusive no corpo e nas roupas dos trabalhadores. Muitos, aliás, acreditam que seja esse um dos motivos da dificuldade de se encontrar novos oleiros.

Outro entrave, segundo os proprietários de olarias, é a migração constante de trabalhadores para outros setores, como a agricultura. “Os jovens, principalmente, consideram o trabalho pesado e se negam a trabalhar nas olarias”, disse Reis. Nas olarias, os funcionários não são contratados. Eles recebem por produção, em média, R$ 45 por dia. Nos períodos chuvosos, eles não conseguem trabalhar, já que a água dissolve os tijolos e transforma o local de trabalho em um verdadeiro “mar de lama”.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários