Jaime Dias da Silva, 37 anos, vendedor, fala com naturalidade incomum aos seus conterrâneos sobre a má formação no lábio e conta que a mãe, desde pequeno, sempre lhe explicou sobre a dificuldade que tinha na fala. O depoimento do paciente operado na 4ª Missão Fala Sorriso, realizada por uma equipe de Bauru (SP) entre os dias 15 e 24 de outubro passado em Careiro (AM), porém, é uma exceção. A maioria das crianças com má-formação lábiopalatina enfrenta rejeição e bullying, dentro e fora de casa.
O lábio leporino é uma abertura na região do lábio ocasionada pelo não fechamento dessa estrutura, que ocorre entre a oitava e a décima segunda semana de gestação. Os estudos ainda não identificaram, com precisão, a causa. Os relatórios científicos indicam influência genética na má formação.
A questão central das fissuras é o longo caminho a ser percorrido para que, com orientação desde o diagnóstico, pais e filhos assimilem a ocorrência, sejam preparados para o enfrentamento e tratamento da má-formação, em um longo, mas seguro, percurso até a recuperação quase perfeita da fala e da auto-imagem.
Jaime é um dos exemplos de que este caminho é tortuoso, mas pode ser vencido. “Minha mãe sempre me contou sobre minha deficiência. Então, no meu caso sempre estive consciente de que tenho o problema e tinha de enfrentá-lo. Agora estou em uma fase em que tudo já está mudando, com muitos progressos. Mas sei que com muita gente não é assim. A vergonha e a rejeição deixam muitos pelo caminho”, diz.
Ele realizou a primeira cirurgia com outro profissional, em Manaus (AM), quando ainda tinha três anos. O cirurgião Antonio Guedes Assunção, entretanto, teve de corrigir a primeira intervenção em Jaime, ainda em outra etapa da missão em Careiro.
Antes de entrar no centro cirúrgico da Unidade Mista de Saúde em Careiro ocupado pela equipe Fala Sorriso, o cirurgião Antonio Assunção explica que Jaime já está em sua última intervenção cirúrgica. “Este paciente passará por uma rinoplastia, a última cirurgia de uma série que trata do paciente portador de deficiência lábiopalatina. Uma cirurgia de uma hora e 15 minutos de duração, na média, onde ele estará totalmente reabilitado. A função agora é não só melhorar a respiração, porque ele tem desvio de septo, como aprimorar a anatomia, colocando as estruturas na posição correta. Ou seja, ele ganha muito em estética também nesta fase.”
Samara da Costa Silva saiu do município vizinho, de Manaquiri, para levar o filho Vitor Klin da Costa para ser operado pela segunda vez em Careiro. “Eu percebi com um mês de vida que ele tinha um problema. Meu filho fez a primeira cirurgia quando tinha oito anos, no ano passado. E agora ele está aqui para a segunda cirurgia. O doutor também pediu que ele reforçasse os exercícios para melhorar a fala.”
Na consulta, o cirurgião reforçou a mãe a importância de Vitor brincar, se exercitando, fazendo bolinhas de sabão, bebendo líquido com canudinho e enchendo bexiga. Para incentivar as crianças a praticar os exercícios, a equipe do Fala Sorriso levou kits com roupas, alguns brinquedos e, claro, bexigas.
“Em Manaquiri, Castanho, Mamori tem muita gente com esse problema no lábio e no céu da boca. Tenho dois filhos e só o Vitor tem o problema, mas a cirurgia já ajudou bastante”, diz Samara.
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