O pensamento arquitetônico contemporâneo exige diversidade estética e compromisso com as questões de sustentabilidade das edificações e da própria cidade, principalmente no que se refere à redução dos resíduos das obras e, posteriormente, do consumo de energia durante sua utilização. Além disso, arquitetura não é uma moda que se modifica a cada estação, pois é feita para durar por muitos e muitos anos, à vista de todos nas ruas. Arte pública, equívocos arquitetônicos permanecem na paisagem urbana por décadas ou séculos.
Por outro lado, os chamados estilos, oriundos de épocas que já se foram, como colunas da Grécia antiga ou fachadas coloniais, não fazem sentido ser reproduzidas. É como se usássemos línguas mortas para a comunicação no tempo da internet.
Poder e dinheiro não significam saber arquitetônico. Ao contrário, geralmente estão associados à sua ignorância. Condomínios luxuosos e fechados que estão se esparramando pela cidade ostentam construções neoclássicas e outras tipologias que em nada contribuem para o esforço coletivo que deveria haver na sustentabilidade urbana. São construções perdulárias que consomem muita água e energia e não tiram partido das condições naturais de ventilação e iluminação.
Por isso, chama a atenção recente episódio ocorrido na escola municipal ‘Frei Lauro’, onde a atual administração municipal resolveu fechar um corredor que era aberto no projeto original construído no governo anterior e permitia ventilação.
Isto aconteceu em função da paranóia e de permanente beligerância do governo Sidnei (Foucault explica), que envolve vedar, cercar, murar, gradear, enfim, coibir o acesso aos prédios públicos em nome de uma falsa segurança, sem qualquer preocupação com a qualidade e conforto ambiental dos usuários de obras públicas. Esta é apenas uma das evidências que as vantagens de uma boa arquitetura foram totalmente desprezadas pelo governo local.
Entre a tênue linha que separa autoridade de autoritarismo, o Prefeito não consegue separar uma coisa da outra. O triste episódio da rodoviária, originado por sua presença no canteiro de obras para ‘fiscalizar’ seu andamento, onde já existe profissional legalmente habilitado para fazê-lo em nome da Prefeitura, é evidência de sua indiferença perante a arquitetura, atividade que requer formação técnica específica e conhecimento científico e artístico. Por isso, burocratas tomam decisões políticas que retiram qualidade da boa arquitetura de prédios existentes, sem maiores discussões. O próprio vice-prefeito, um arquiteto, se queixou de ser deixado à margem. Se o prefeito não sabe sequer o que é ‘semáforo inteligente’, certamente não sabe também o que é ‘edifício inteligente’.
A arquitetura da cidade precisa voltar a ser discutida com seriedade por todos que se interessam pelo futuro.
Infelizmente, o poder público, que deveria liderar este processo, não o faz. O novo código de obras, exigido pelo Plano Diretor, nunca foi em frente.
As entidades de classe e a universidade também não o fazem, nem se mobilizam para exigi-lo. Enquanto isso, o que se constrói pela cidade é, em boa parte, insustentável como viadutos, cuja correção custará caro no futuro.
Mauro Ferreira
Arquiteto e professor da FESP-UEMG
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