Imagem e realidade


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A divulgação da imagem de um corpo carbonizado, conscientemente publicada pelo Comércio na terça-feira, 01/11, ensejou críticas e alguns protestos mais indignados por parte de alguns cidadãos francanos. Essas reações são importantes e bem-vindas. Ao protestarem publicamente, as pessoas colocam sua opinião e acabam atraindo outras. Isso incita o debate e influi decididamente na formação e na transformação das idéias e opiniões que formam a opinião pública.

Além disso, essas reações são também compreensíveis. A imagem fotográfica tem o forte poder da representação. Parece demais com a realidade que experimentamos em nosso dia-a-dia. Como aquelas fotos pessoais, nas quais nos vemos mais feios ou mais gordos, e que por isso rasgamos ou escondemos nos cantos mais fundos e escuros de nossas gavetas.

Mas se podemos ignorar aquilo de que não gostamos em nós mesmos, evitando o espelho ou rasgando fotos, não podemos fazer o mesmo com a realidade cotidiana que nos cerca. Estamos presos a ela, não individualmente, o que é pior, mas socialmente. Mesmo que não gostemos de sua face mais dura, não podemos ignorá-la.

E é justamente nesse ponto que se encontra o problema. Parece que vivemos em um mundo cada vez mais narcisista, em busca do belo e da felicidade plena. Mesmo experienciando uma sociedade competitiva, desigual e violenta parece que tentamos fugir sorrateiramente dessa realidade mais feia, buscando no mundo das imagens um cotidiano mais tranqüilo e apaziguador.

Por isso, elas precisam ser belas, falar de amor, aventura ou algo edificante. Até podemos aceitar outras mais duras, mas que sejam representativas de realidades mais distantes. Imagens de tragédias na Índia ou no Rio de Janeiro não nos desgostam tanto. Ficamos até um pouco tristes, mas nada que nos tire o bom sono. Até mesmo a imagem do moribundo e ensangüentado Kadafi, que correu o mundo nas últimas semanas, não causou tanto mal-estar. Afinal, além de ditador, os problemas da Líbia não vivem em nosso cotidiano.

O problema, no fundo, não está nas imagens, está na realidade que nos cerca. O que deveria doer não é a imagem de um corpo carbonizado estampado nas páginas do jornal, mas sim a consciência de que tal barbaridade aconteceu aqui em minha cidade, talvez em um bairro próximo, e não mais nas distantes ruas cariocas ou paulistanas.

De qualquer forma, ao jornal cabe relatar os fatos da maneira mais isenta possível, em todos os seus detalhes e cores. Se as imagens chocam é porque a realidade lhes empresta a ação. Criticá-las por seu impacto e não refletir sobre a sociedade que estamos construindo é como rasgar a foto de nossa feiúra ou obesidade.

Não vamos ficar mais bonitos por isso, nem mais magros.

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