Andar por cemitérios é, muitas vezes, sinônimo de encontrar-se com o silêncio invadido pela lembrança daqueles que não mais estão conosco. A memória de quem se foi mora ali, em meio a lápides, mausoléus, jazigos e cruzes. Um verdadeiro mar póstumo de pessoas. Cenário que celebra a solidão. E como palco do vazio, o que muitas vezes nos passa despercebido é que o local que guarda a morte renasce em forma de arte.
Esculturas e lápides em mármore, granito, bronze e ferro fundido trazem consigo inúmeras mensagens, com interpretações sobre a vida e a morte. Em Franca, a maioria das intervenções encontradas no Cemitério da Saudade data das décadas de 30 e 40, e seguem o estilo neoclássico, movimento cultural nascido na Europa ainda no século XVIII e altamente difundido no ocidente no século XIX. Retomando a cultura da Antiguidade clássica, com traços moderados e o equilíbrio como característica principal, as obras dessa escola também baseiam-se nos ideais do Iluminismo, evitando os excessos e dramas típicos da arte barroca e do rococó, por exemplo.
Dentro da escola neoclássica, é comum encontrarmos esculturas como Pietás (Maria com Jesus morto), que representam o desejo de que uma alma seja bem recebida; anjos, que significam que o indivíduo foi uma boa pessoa em vida e merece o ‘paraíso’; e cruzes, analogia cristã da interseção do plano material com o plano espiritual.
De acordo com o professor de História da Arte do UNATI-Unesp, Beto Monteiro, a arte no Cemitério da Saudade de Franca começa a ser difundida com a chegada dos imigrantes italianos ao Brasil. “Foram os italianos que trouxeram da Europa esse tipo de arte para cá. Isso aconteceu entre os anos de 1930 e 1940, na época da imigração”. Ele também explica que os cemitérios nada mais são que espaços que abrigam obras de arte, assim como em uma imensa galeria. “Não é pelo fato de estar em um cemitério que determinada obra de arte deva ser necessariamente gótica. As obras expostas sobre as lápides seriam apenas um suporte, ou seja, o que nos importa é a obra de arte em si, que pode ser de qualquer escola, da arte rupestre à arte conceitual”.
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