Ter onde cair morto


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Para o filósofo Montaigne, ninguém morre antes da hora. Ainda, na concepção do pensador francês, se alguém fosse capaz de aprender a morrer, na verdade teria aprendido mesmo, era a viver.

Em tempo não muito distante, os atos de nascer e morrer aconteciam na casa de cada pessoa. Normalmente o feto chegava ao mundo pelas mãos de uma parteira, mulher que acompanhava os trabalhos de parto. Dessa época, pelo menos, não se tem notícia de que alguma criança tenha tido problemas no pescoço ao ser mal puxada do útero da mãe, como acontece hoje.

Era a parteira que cortava o cordão umbilical. Por sinal, os umbigos ficavam fundos e arredondados. No entanto, ninguém andava mostrando a cicatriz do ventre por ai. Agora, não. A geração que nasceu fora de casa, pelas mãos dos médicos, costuma se vestir de maneira que possa deixar à mostra o pontiagudo umbigo, como se fosse um enfeite. Por vezes, tem gente que até coloca piercing na saliência herniosa.

No mais, os rituais de nascimento continuam iguais. Por seu turno, a morte também deixou de acontecer em casa. Antes, a pessoa ia vivendo e acabava morrendo sem ir para os assépticos hospitais. Hoje em dia, a maior parte das mortes ocorre em ambientes próprios para se cuidar da saúde. A família deixou de acompanhar de perto o lento final do ente querido moribundo.

A cerimônia de velar o corpo não acontece mais em casa. Nada de colocar o caixão aberto sobre a mesa da sala. Aliás, atualmente a sala nem tem mais um móvel capaz de sustentar o morto todo paramentado. Parentes, vizinhos, amigos, colegas de trabalho e até transeuntes ocasionais comparecem a velórios ou a outros locais locados para tal finalidade.

Passar a noite velando o corpo está virando raridade. Bem pouca gente se dá a este trabalho nos dias de agora. Apenas os parentes próximos ainda velam o defunto. Isso não quer dizer que as pessoas estejam desprezando o morto ou, muito menos, tentando escamotear a presença da morte. Pelo contrário, porque até leilão de pedaço de terra em cemitério anda sendo feito. Por sinal, a preço bem alto.

Como muitos não têm nem onde cair morto, somente uns poucos puderam arrematar os túmulos colocados em leilão pela Prefeitura. Apenas quem tinha onde cair morto pôde comprar um jazigo. Alguns compradores até posaram ao lado da nova propriedade terrena e futura morada póstuma. Pareciam felizes por ter onde ficar depois de mortos!

Voltando ao Montaigne, que pensou muito sobre a morte e chegou também à conclusão de que ‘a melhor maneira de se homenagear os mortos é respeitar os vivos’, aproveite a tese do filósofo para trocar as reverências, a serem feitas amanhã, por mais respeito a quem está agora à sua volta. Principalmente, se for uma criança, um doente ou uma pessoa já bem adiantada na idade. Depois, não adianta chorar.

Antônio Araújo
Articulista e professor - tonin.palavras@uol.com.br

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