A reportagem chega na hora marcada, mas precisa esperar dona Cida acabar de se arrumar. Logo ela aparece na ala feminina do Lar de Ofélia, mantido pela Fundação Espírita Judas Iscariotes, perfumada e maquiada, esbanjando alegria. Aos 66 anos, Maria Aparecida de Jesus Melo tem as pernas amputadas e quase não enxerga devido à catarata, mas sua disposição revela superação. Após um casamento de 28 anos e muita cumplicidade, mas sem filhos, dona Cida perdeu o marido e encontrou no Lar, há seis anos, o carinho e os cuidados que neccessita para viver.
“Não conheci meu pai e minha mãe morreu quando eu tinha 18 anos. Com problema no útero, não tive filhos, Deus quis assim. Os meus irmãos morreram. Tem hora que dá tristeza, me sinto desprezada, mas vou para o meu quarto, choro muito e passa”, diz Cida.
Assim como ela, 505 idosos vivem em 11 lares e asilos de Franca (357) e região (148), segundo levantamento feito pelo Comércio. Um pouco mais de 10% dos internados, o equivalente a 59 idosos, não recebem visitas da família por terem sido esquecidos ou não terem mais parentes. O maior contingente de esquecidos, 40, está internado com esquizofrenia no Hospital Psiquiátrico Allan Kardec.
“Esses idosos chegam através de solicitação do Ministério Público, principalmente”, diz Ligia Andrian Leal, assistente social do Lar de Ofélia. “Tentamos substituir as famílias com a nossa atuação profissional, as atividades e trabalhos, mas não conseguimos suprir a necessidade que eles têm de receber visita, de ter alguém que se importe com eles”.
O Lar de Ofélia acolhe 135 idosos de vários lugares e costumes, que vivem como se fossem uma grande família. E foi assim que Ismael Bernardes Alves, o Tatu, 70, conheceu a sua primeira namorada, com quem se casou em janeiro deste ano. “Eu morava na roça. Cheguei aqui cabeludo, com barba grande e bicho-de-pé. Agora fiquei novo”, diz Tatu, que durante a entrevista usava calça e camisa social, assim como seus colegas Newton de Oliveira, Adonias Pereira Souza e Geraldo José Bastos.
Newton, 54, é conhecido no Lar como o “deputado”, por usar gravata também. “Comecei a usar roupa social há uns 15 dias, depois de ser batizado na Igreja Universal. É importante estar sempre perto de Deus.”
Segundo a assistente social, alguns idosos estão bem adaptados à vida do Lar, mas outros ainda se sentem insatisfeitos e magoados com os próprios familiares.
VÍNCULOS
O Lar de Idosos Eurípedes Barsanulfo atende 19 idosos, mas todos têm vínculos familiares. No entanto, segundo a coordenadora Luciane de Fátima Goulart, é preciso ficar atento à frequência das visitas. “Se a família some, fica um mês sem visitar, a gente corre atrás.”
Já na Casa São Camilo de Lelis, os 32 idosos passam todos os fins de semana com a família.

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