Em 1927, Fernando Pessoa criou o primeiro slogan para a Coca-Cola em Portugal. Exímio trabalhador das palavras, o poeta conseguiu resumir brilhantemente toda a sensação experimentada ao se beber o refrigerante: “Primeiro, estranha-se, depois entranha-se.” De forma aproximada, é possível emprestar esse slogan ao projeto “Legal é Ser Educado”, idealizado pelo ex-secretário de Ação Social de Franca Maurilo Casemiro Filho, também responsável pelo projeto técnico que deu origem ao Instituto Pró-Criança.
Esse projeto, implantado de forma experimental na Escola Estadual Luiz Paredi Sinelli, com o apoio do Rotary Club de Franca e do GCN Comunicação, acaba estranhando pela sua própria essência. Noções básicas de educação, como dizer “bom dia”, “desculpe-me”, “com licença”, deveriam ser algo natural, inerente a todos que convivem em sociedade.
Mas é justamente por trás dessa simplicidade que se esconde a grandeza do projeto, explica seu idealizador. “Precisamos combater o mau exemplo e as questões comportamentais com ações simples. Nada de palestras ou projetos grandiosos. Um incentivo e um reconhecimento podem valer mais que um presente”, completa Maurilo.
E o projeto realmente estranha em sua simplicidade. Não há níveis administrativos hierárquicos, imposições de temas, interferências burocráticas, regras rígidas ou manuais.
“Decidimos que o projeto não poderia ser mais uma ‘mala’ para a escola ou para os professores. Portanto, estamos fazendo dele uma mochila, mais fácil de carregar”, diz Coronel Brandão, presidente do Rotary.
A implantação também foi simples. Após as explicações iniciais, as coordenadoras pedagógicas Marisa Helena Chaves e Aierlene Antonelle, bem como a professora mediadora da escola, Priscila Ribeiro da Costa, começaram a colocá-lo em ação. Primeiramente, reuniram alguns alunos dispostos a participar do projeto. Orientados, esses alunos começaram a passar em todas as salas da escola para explicar o projeto aos colegas. As salas decidiam se queriam ou não aderir. Se aderissem, deveriam eleger seus representantes.
Isso feito, cada uma das salas listou os principais problemas comportamentais da turma. A partir dessa listagem, os alunos começaram a discutir a solução. “Os alunos discutem os problemas sozinhos. A idéia é que tenham mais liberdade para falar, sem professores ou coordenadores”, diz Marisa.
MUDANÇA
Mas, lembrando Fernando Pessoa, se o projeto estranha no começo, ele entranha-se em seu decorrer. Em três meses de trabalho, já é possível perceber uma mudança considerável no comportamento apresentado em sala de aula. De acordo com Jéssica Pinos, aluna do 1º ano do ensino médio, “professores que antes não conseguiam dar suas aulas hoje já fazem isso até com certa tranquilidade”. Até mesmo alguns alunos que antes exerciam uma liderança negativa na sala estão aderindo à idéia de ser educado. “Hoje eles até chamam a atenção daqueles que começam a fazer bagunça”, completa a aluna Gracieli Ferreira.
Mesmo que já “entranhados” ao projeto, todos têm consciência de que o comportamento humano não pode ser mudado da noite para o dia. De acordo com o idealizador, para conseguir introjetar essas noções nos alunos de forma duradoura será preciso algo em torno de 5 a 6 anos.
Mas de qualquer forma, para as educadoras o projeto já valeu à pena. “Quando vemos a transformação acontecendo em um único aluno, como já aconteceu na nossa escola, sentimos uma alegria muito grande”, finaliza a diretora, Cidinha de Paula.
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